Opinião
A paix�o de Cristo: uma vis�o contempor�nea
| Fátima Albuquerque * Os olhos miúdos me contemplam do outro lado do vidro. Amedrontada, me certifico de que a porta do carro está travada. Um minuto depois me sinto envergonhada. É apenas uma criança e já está amedrontando o mundo! Os pés estão descalços e as pernas, marcadas de arranhões, certificam a dura vida de rua. A camisa amarrotada e rasgada na altura do peito deixa à mostra um cordão com um crucifixo enferrujado. Lá está Cristo, revivendo a sua paixão de cada dia. Ele continua sendo crucificado naquele corpo franzino. Não está longe dali, encastelado nas igrejas. Está nas ruas, na sua via dolorosa, perambulando com os menores abandonados. Está nas noites dormidas na rua, entre os grupos de menores que se amontoam, embaixo das marquises. Está nas favelas, nos assentamentos, nas ocupações das áreas urbanas, nas comunidades famintas que comem tetéia (galinha podre que se encontra nos restos do mercado central). Todos os dias recebe cravos nas mãos, quando políticos irresponsáveis desviam, irregularmente, recursos da nação destinados às comunidades carentes e à classe trabalhadora. Todos os dias recebe uma lança no peito, quando o governo, desconhecendo a universalidade dos direitos humanos, deixa que as populações que vivem abaixo da linha da pobreza, continuem vivendo na clandestinidade da invisibilidade social e política. Todos os dias recebe o vinagre na boca quando, observando crianças sofrendo abuso sexual nas comunidades desassistidas, percebe a distorção irrecuperável se moldando em suas almas. Todos os dias recebe cravos nos pés, quando, acompanhando a caminhada de tantos seres humanos, trabalhadores rurais, percebe que a fome dos poderosos é maior do que a fome das tantas barrigas. Talvez, no outro tempo, não se tenha notado lágrimas no olhos do Cristo. Mas hoje em dia, não é difícil perceber os seus olhos marejados. Até quando viveremos a paixão de Cristo em meio a tantos chocolates? Quem de nós assume ser parte da turba que apedreja o Cristo? Quem de nós assume pregar os cravos das mãos ou dos pés? Quem de nós assume levantar a mão da lança? Às vezes, gostaria de ser criança de novo e voltar a ver o mundo de uma forma inocente. Incrédulos ou crédulos, a verdade é que a paixão de Cristo é de todos nós. (*) É professora da UFAL.