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Nº 5656
Opinião

No Brasil, escolhemos o plano de saúde pensando na doença

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Por Anderson Mendes - presidente da União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde (Unidas) | Edição do dia 22/12/2023 - Matéria atualizada em 22/12/2023 às 04h00

A escolha de um plano de saúde é uma decisão que impacta diretamente a qualidade de vida e o acesso a cuidados médicos. Muitas vezes, porém, os indivíduos tendem a escolher planos de saúde com base na preocupação com doenças e problemas de saúde, em vez de considerar uma abordagem mais abrangente para o bem-estar.

Ao escolher um plano de saúde, é comum analisarmos a rede credenciada de hospitais, clínicas e médicos que eles oferecem. Mas será que esse deveria ser o principal critério na escolha de uma assistência de saúde? Se o próprio nome do serviço é plano de saúde, por que o processo de escolha passa mais pela doença?

Pode não parecer, mas há uma grande diferença entre prevenção e cura. Deveríamos nos perguntar, antes de tudo, o que o plano de saúde oferece em relação à promoção da saúde e à prevenção de doenças, e não ter como prioridade qual hospital minha operadora oferecerá quando eu ficar doente.

Essa, sem dúvida, é uma das maiores preocupações dos planos de saúde de autogestões desde a década de 1990. Para se ter ideia, mais de 70% dos atendimentos nos serviços de atenção à saúde deveriam ser focados em programas de Atenção Primária à Saúde (APS), na qual o indivíduo (e não a doença) é o foco, estratégia que já se mostrou eficaz em prevenir doenças e diminuir os custos com os gastos de saúde.

Na prática, a APS é um acompanhamento do paciente de maneira periódica, estimulando atividades e ações que previnam doenças, contribuindo para evitar exames e internações desnecessárias. Funciona com médico da família: aquele que tem seu histórico e que faz um acompanhamento coordenado da sua saúde como um todo. Pode parecer algo simples, mas, esse tipo de cuidado evita gastos desnecessários como o de repetir exames e não deixar de fazer os rastreios importantes, de acordo com sua classificação de risco.

Todos ganham com a adoção de programas de APS. Tanto os planos, que reduzem os gastos, uma vez que as internações representam cerca de 50% dos custos do setor, e acima de tudo, os beneficiários, porque passam a ter uma vida mais saudável, com acompanhamento de qualidade e direcionado para a necessidade individual. Se olharmos em perspectiva para o aumento dos gastos com a saúde privada, a APS se torna cada vez mais essencial na oferta de uma saúde privada de melhor qualidade. Uma vez que, segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o setor de planos de saúde registrou um prejuízo operacional de R$ 1,7 bilhão no primeiro trimestre deste ano, aprofundando a perda de R$ 1 bilhão de igual período de 2022.

Quando falamos em idosos que sofrem mais com internações e doenças relativas à idade, investir em APS é ainda mais importante, porque a taxa de internação da faixa etária dos mais velhos nos planos de saúde (geralmente de 59 anos ou mais), é de 20%. Na prática, com o atendimento preventivo, teríamos 4 mil internações a menos, o que desafogaria o sistema e ajudaria a trazer uma atenção à saúde mais qualitativa. O total de exames também seria impactado, já que os beneficiários com 59 anos ou mais costumam fazer, em média, 37,7 exames por ano.

Então, sim, o plano é de saúde! E isso passa por ter estratégias de cuidado, o que significa ter um mapeamento prévio de fatores de riscos e linhas de atenção que ofereçam qualidade de vida e bem-estar, diminuindo a incidência de doenças, especialmente em casos em que os quadros são evitáveis.

Mas não adianta só nós, autogestões, falarmos sobre como devemos olhar para a prevenção e não só para a cura. É preciso promover uma transformação cultural, em que a aquisição do plano deixa de ser focada especificamente na rede credenciada e na doença. Essa lógica manterá a realidade de um sistema sobrecarregado e ineficaz, e mais ainda: continuaremos sem cumprir o nosso papel de sermos fornecedores de saúde, e seguiremos como pagadores de contas que não agregam para que nossos beneficiários tenham uma melhor qualidade de vida. Não é isso que queremos. Queremos contribuir para um país saudável.

Então, fica a minha pergunta: Como você escolhe seu plano de saúde?

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