Opinião
Por quem os sinos dobram
| Ronald Mendonça * O veterano Romário, polêmico goleador de 41 anos de idade, está prestes a atingir um feito raro: a marca dos 1.000 gols. Imbuído de justa vaidade, o ?Baixinho? pretende comemorar no Maracanã, teatro esportivo que tem tudo a ver com a sua trajetória, cujas redes inúmeras vezes acolheram os muitos gols que ajudaram a construir a fama do artilheiro. Se o fato histórico consumar-se realmente no Maracanã, não será a primeira vez para o maior estádio de futebol do Brasil. Com efeito, há quase quatro décadas, o genial Pelé, aos 30 anos, alcançaria essa marca fantástica agora obstinadamente perseguida pelo grisalho Romário. Cientistas esportivos, comentaristas, espíritos de porco, flamenguistas invejosos e palpiteiros em geral vêm insistindo que as contas de Romário (assim como as de Pelé) não fecham muito bem. Para essa turma, os dois jogadores computaram gols marcados antes de se tornarem profissionais. Bobagem. A não ser aqueles dos rachas de praia, gol é gol, e fim. Testemunha das duas épocas, sinto-me pouco à vontade para comparar figuras tão díspares. O que se pode dizer é que são conquistas invulgares. Pelé, por exemplo, teve uma carreira linear, praticamente num só clube, mantendo-se longe dos holofotes dos escândalos. Compenetrado, tido como o maior jogador de todos os tempos, atingir os mil gols foi uma conseqüência natural. Hoje, sabe-se que o ?Rei? não era tão santo quanto parecia. Debochado, inteligente, sarcástico (?Pelé calado é um poeta?) amante das noites e de lindas modelos, pulando de time em time quase com a mesma sofreguidão com que circulava de cama em cama, avesso a treinos, Romário tinha tudo para não durar. Nesse aspecto, consagra-se também como um dos atletas mais longevos da história do futebol. Sem querer subestimar o evento, há um quê de ironia no clima de expectativa pelos mil gols de Romário. Vive-se num País onde professores se aposentam e ninguém fala nas suas milhares de aulas que levaram luzes às trevas da ignorância; cirurgiões penduram seus bisturis e ninguém se lembra das milhares de vida que salvou; probos juízes recolhem-se, morrem e ninguém está nem aí... Por outro lado, num País de poucos heróis e muitos bandidos, o que teríamos afinal a reverenciar? O SUS? Os rombos nas contas de nosso Estado? Alemão e Siri, do Big Brother? O bispo Macedo? Fernandinho Beira-Mar? A genialidade de Lulinha Júnior? Zé Dirceu, Delúbio et caterva e seus mil esquemas sórdidos? (*) É médico e professor da Ufal.