Opinião
O segredo dos Arranjos Produtivos Locais
| Benedito Ramos * Pode-se afirmar que a noção filosófica dos Arranjos Produtivos Locais (APLs) existe desde a idade média, disfarçada nas antigas guildas ou associações de ofícios. A grande diferença de hoje é a sistematização e institucionalização do sistema. Friamente, poder-se-ia dizer, que o ciclo se fecha, exatamente, no conceito de produção conjunta, no associativismo e na logística de venda. No entanto há um ingrediente que ainda não existe no Brasil, sobretudo aqui nas Alagoas: a cultura da posse coletiva. Para entender melhor esta expressão basta andar em alguns países da Europa e ver o orgulho, com que um morador provinciano, de uma aldeia medieval, gente simples, de casaco preto, chapéu meio gasto, fala do queijo ou do presunto produzido na sua região. Um motorista de táxi de Certaldo, cidadezinha Toscana, disse ao autor deste texto todo orgulhoso: ?Aqui morreu Petrarca?. E não parou mais de contar sobre a sua terra. Um exemplo claro, inverso da cultura de posse coletiva é tomar um táxi em Maceió, como um visitante e ouvir do motorista: ?Não tome banho aqui, é tudo poluído?. Depois as pessoas se queixam que os filhos não conseguem empregos. Quando a própria população trata de apregoar os pontos negativos da cidade. E, pasmem quando se tenta corrigir esta ação a reação é: ?Eu não vou mentir?. A cultura da posse coletiva está justamente, na elevação da auto-estima do cidadão em relação a sua cidade ou ao seu País. Quando isto não ocorre, por questões óbvias ela precisa ser trabalhada pelo poder público. Não basta, portanto, o APL ser implantado em determinado grupo, mas incorporado em toda a população local com a idéia da posse coletiva como instrumento de desenvolvimento da região. Um bom exemplo disse é Boca da Mata ? é só chegar à cidade que qualquer pessoa sabe onde mora Manezinho da Marinheira. É preciso ter orgulho de sua região, de seus artesãos, de sua manufatura e todos os seus produtos locais. Falar mal corrói, acaba, desestimula o visitante a voltar à cidade. A indústria do turismo é sensível demais. Uma notícia ruim é suficiente para que as pessoas modifiquem os seus roteiros. E quem perde com isso é a cidade, é o comércio local, são os guias, os motoristas, as empresas de turismo, os hotéis, enfim você mesmo, caro leitor, que está com seu filho ou filha desempregado. O desenvolvimento econômico de uma região não é feito apenas com um grande parque industrial, mas da paixão de seus habitantes pela sua cidade. (*) É artista plástico e escritor ([email protected]).