Opinião
O cuscuz
| Marcos Davi Melo * Já disse um sujeito sensível que uma das grandes alegrias que podem ser proporcionadas a uma pessoa comum é encontrar no meio de uma grande multidão, se estiver sozinha em uma terra estranha e muito distante, uma cara conhecida, uma pessoa amiga. Ou, mesmo, uma pessoa de sua terra, que mesmo não conhecendo, sendo encontrada entre estranhos em uma terra longínqua é como de alguma forma achar as raízes distantes e temporariamente perdidas. Neste caso, seria apenas uma questão de identidade cultural momentaneamente restabelecida. Por alguns momentos, é como se apegar a um tronco que flutua no mar bravio e escuro e retomar um pouco do fôlego até novamente se pisar em terra firme. Algo assim aconteceu com meu filho Marcel Davi que faz residência médica em São Paulo. Seus hábitos herdados de uma afável temporada doméstica que da infância à fase adulta levaram mais de 20 anos, marcaram-lhe com a maioria de nós as opções no que se refere às principais atividades diárias. Entre elas, claro, não só as preferências culinárias, como as suas particularidades. Desta forma, morando na própria Residência Médica do Hospital A.C. Camargo, após quase um ano de atividades, deparou-se um dia, no café da manhã, com um baita cuscuz servido no café da manhã. Ávido e saudoso partiu para o cuscuz com gana de servente de pedreiro. Serviu-se fartamente, em cima do mesmo colocou um belo ovo e por cima de tudo ainda espraiou leite quente. Depois fez aquela mistura tão saborosa para muitos de nós. Arrochou o dente com prazer e só foi constatar que era motivo de chacota geral ao fim, quando o prato já estava vazio, como se tivesse sido lambido por um gato. Os colegas médicos da Residência que com raríssimas exceções, para fazer favor, só provaram uma pitada de cuscuz com açúcar e mais nada, gozaram os hábitos por demais nordestinos do rapaz. Ele não ligou. Pança cheia e satisfeita foi cuidar dos seus afazeres. Desde então, uma vez por semana, o cuscuz aparece no café da manhã do Hospital, o Marcel faz a sua festa gastronômica e todos os colegas fazem aquele alarde gozador. Certo dia faz pouco tempo, ocorreu um grande frenesi. Durante o café da manhã, no dia do cuscuz, um dos colegas correu em direção ao Marcel e alardeou para todos ouvirem: ? Gente, tem um cara ali que por incrível que pareça come cuscuz igual ao Marcel!?. Todos se levantaram e foram ver de perto esta outra raridade. Era o André, um residente novato, filho de Júnior e Humberta, alagoano, sim senhor. (*) É médico e professor da Uncisal.