Opinião
Etanol: dieta para engordar a fome no Brasil
| Fátima Albuquerque * A imagem é nítida: um grande lençol verde que se encontra com o azul do céu no horizonte. Lá longe, um fila de seres humanos, caminha de volta de mais um dia de trabalho no canavial. Não são robustos, nem as faces estão coradas pelo sangue sadio, mas pelo calor escaldante do sol tropical. De fato, são magros e a estatura somente é grande na bravura. Essa fila atravessou heroicamente a história do Brasil e, se nunca achou o caminho para o sucesso profissional e uma vida socialmente justa, nunca se perdeu, pelo vínculo com o trabalho braçal na terra fértil do solo brasileiro. Cana, saúde, riqueza e justiça social nunca foram termos convergentes mas antagônicos, pelo menos para a classe trabalhadora e para os Estados que fizeram da monocultura da cana-de-açúcar sua principal forma de economia. Estudos desenvolvidos sobre a saúde do trabalhador da cana já mostraram que a exposição diária a cargas físicas, químicas e biológicas se traduzem em doenças tais como dermatites, conjuntivites, desidratação, infecções respiratórias, ferimentos, dores torácicas e lombares, aumento da pressão arterial e tantas outras. Houve época que, a pretexto de ?proteger? o meio ambiente e o trabalhador, foi introduzido o corte mecanizado da cana. Novamente estudos comprovaram que o perfil de adoecimento dos operadores das máquinas mostrou-se semelhante ao do cortador manual, especialmente nos quadros das doenças psicossomáticas, e isso se deu principalmente à intensificação do ritmo de trabalho para a ?otimização? do uso das máquinas. E as crianças? Ah! Nem as crianças escapam! Estudos com crianças de famílias radicadas em engenhos da zona canavieira mostraram que era alto (40%) o índice de déficit de crescimento. Elas sofrem com a fome e a vida miserável de seus pais e mães, ?escravos/as da cana?. Se a cana tivesse trazido uma riqueza distributiva, o Estado de Alagoas, por exemplo, não teria os piores valores para o índice de desenvolvimento infantil (IDI) e para o índice de desenvolvimento juvenil (IDJ) do País. O que se espera então de um aumento da produção de cana, para satisfazer a demanda para a produção do etanol? Existe uma expectativa de que nos próximos 6 anos a produção aumente 55% para atender as demandas da Europa e dos Estados Unidos. Esta não é uma equação difícil de resolver: aumento da produção de etanol = (aumento da poluição ambiental pelo aumento de uso de agrotóxicos + aumento das infecções respiratórias e desnutrição pelo aumento das queimadas) + (aumento das desigualdades e violência nas áreas urbanas e rurais + aumento da fome). Ganha ou perde o Brasil? (*) É professora da Ufal.