Opinião
Fa�a de sua vida uma festa
| Dom Fernando Iório * O homem e a mulher são seres festivos. O ser humano não é somente alguém que pensa e trabalha, senão também que imagina e procura celebrações festivas. Harvey Cox afirma, em um de seus livros: ?O homem é um ser que canta, dança, reza, conta histórias e festeja suas vitórias, seus sonhos?. Ross Sayder, por sua vez, declara: ?Fazer festa é apreciar as possibilidades escondidas nos refolhos da vida, mesmo tendo consciência de todo o mal e frustração existentes. É acreditar em que tem a criação o bem em si e este bem podemos invocá-lo?. Festa é o prazer que se tem nas coisas simples e elementares ? a ação bem feita, o pensamento bem expresso, a beleza que se acaba de ver, a relação de intimidade, a imaginação criando novos sonhos, a conversação que risca fogo, o corpo jovial. O sentimento de festa é um movimento ad intra, uma entrada na vida do mundo, de modo a sentir o santo. O impacto da ciência parece ter rompido o equilíbrio entre o racional e o irracional, a ponto de ter o ser humano perdido muito de sua capacidade de festa, de apreciar o sagrado que encontramos no Rei Davi, bailando com vestes simples em louvor a Jahvé. As celebrações dominicais, os festivais, as festas de aniversário, de padroeiros, os piqueniques, as reuniões para chá, as refeições festivas em que se reúnem os membros da família, são ocasiões especiais em que os homens e as mulheres, pondo de lado as obrigações cotidianas, procuram arejar o espírito e relaxar o corpo. São momentos de festiva comunicação que despertam o mais puro sentimento de empatia. Nas comemorações festivas procuramos fazer que os outros sintam aquilo que sentimos. Assim aconteceu a Levi, mais tarde ? Mateus ? quando foi convidado por Jesus para segui-lo. Mateus deixou o trabalho de cobrador de impostos, deixou tudo e seguiu o Mestre. Mas, não se conteve: ofereceu a todos os seus amigos um banquete, para que todos sentissem a alegria que ele estava vivendo: a de ter sido convidado por Jesus para pertencer ao Colégio Apostólico. O espírito de festa brotou do interior da vida de Mateus. Na literatura sobre Zorba, encontramos o júbilo deste epicurista em transmitir a alegria de dançar a seu mestre. Zorba, então, pulou nos ares e seus braços pareciam ter criado asas. Mateus, com um banquete, e Zorba, dançando, revelam o instinto de festa que mora no recôndito do ser humano. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.