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Opinião

Cada um com a sua dor

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| Ronald Mendonça * Pode-se dizer quase tudo sobre o ditador iraquiano Saddan Hussein, menos que ele amofinou-se na hora de seu enforcamento. Pelo contrário, morreu trocando insultos com os seus carrascos ? pelo menos é o que sugerem as imagens piratas divulgadas pela mídia. Antes disso, na fase de julgamento ? para muitos uma farsa ?, repelia com vigor as acusações contra sua pessoa. A palidez do seu rosto na hora fatal revelava seus temores. Certamente, Alá o confortou. Outro que demonstrou serenidade na hora do fuzilamento, foi o grande mártir das esquerdas, o destemido Ernesto Che Guevara. De fato, se dermos crédito aos depoimentos dos seus algozes, publicados pela imprensa burguesa nacional, Che mostrou-se altivo nos seus últimos momentos. Suas derradeiras falas foram endereçadas à esposa, a quem recomendou refazer a vida. (Quem sabe um mea culpa?) Morreu reeditando sua máxima: duro, mas sem perder a doçura. Nesse contexto tanatológico, não há como fugir do recente massacre numa universidade americana, quando mais de 30 pessoas foram fuziladas por um colega de universidade. O autor, um jovem sul-coreano, há anos radicado nos Estados Unidos, descompensado na sua loucura, acreditava ser mensageiro de alguma missão transcendental contra os ricos e belicosos ianques. Na dor, ficam ensinamentos e conjecturas. Na visão médica, salta aos olhos a equivocada abordagem psiquiátrica a que foi submetido o asiático. Um tipo sem dúvida estranho, segundo consta, esquizotímico, certamente sua psicose foi subdimensionada. A leitura política, quem sabe, rancorosa, tem levado muitas cabeças pensantes deste País a responsabilizar o ?american way of life? pelo sangrento episódio. Nesse viés, à parte a facilidade com que se adquirem armas de fogo, a culpa pelo macabro acontecimento fica praticamente transferida para a sociedade, ainda mais quando o agressor é um estrangeiro, sem dúvida discriminado. Nesse caso, ficaria patente o caráter ?reparador?, ?justiceiro?, da carnificina. As nossas dores morais têm merecido leitura semelhante. A violência, o tráfico de drogas (não esquecer que só existem drogas porque há consumidores), a corrupção em todos os níveis teriam como causa exclusiva as desigualdades sociais. Os bandidos morrem de rir com esses fulanos a desculpar-lhes os atos. Assim fica fácil: o sujeito assalta, estupra, esfola, para no final um engraçadinho justificar os crimes apelando para o fosso social. (*) É médico e professor da Ufal.

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