Opinião
Gl�rias e vexames
| Ronald Mendonça * Em comentários anteriores, escrevendo sobre a fundação da Faculdade de Medicina há 57 anos, referi-me à imensurável repercussão que a nova instituição provocaria na comunidade alagoana. A óbvia conseqüência inicial processar-se-ia no ânimo da estudantada dos colégios ao perceber que ser médico não era sonho apenas para os que podiam pagar faculdades em outros Estados. Os horizontes ampliaram-se além dos concursos para o Banco do Brasil ou Correios. É de se imaginar o orgulho com que foi saudada a formatura dos primeiros médicos ?made in Alagoas?. A qualidade dessa primeira fornada seria o certificado de garantia ? e incentivo ? para futuros pretendentes. A Faculdade de Medicina de Alagoas era uma realidade irreversível. Apóstolos da boa nova médica, os novéis diplomados espalharam-se pelo País. A própria instituição aproveitaria os vocacionados para a docência. Muitos regressaram, após treinamento em centros maiores, trazendo na bagagem novidades que ajudariam a elevar o padrão científico da profissão. Outros tantos, fixaram-se nas cidades do interior, criando raízes definitivas. O efeito da nova faculdade logo se faria notar na melhoria da assistência médica. A população passaria a contar com uma medicina mais atualizada, certamente mais ousada. Avançados procedimentos diagnósticos e terapêuticos tornaram-se viáveis. A federalização da Faculdade premiaria o esforço dos fundadores. Embalados pelo prestígio e confiança, freqüentemente somos empurrados para os braços lascivos da política. Conhecendo in loco a miséria e íntimo das doenças, muitos médicos tomam gosto pela coisa, realizando trabalhos parlamentares consagradores. O lendário fascínio de médicos pelas letras amadureceria a idéia de se fundar uma entidade que os abrigasse. Plantada há 30 anos, a semente da Sobrames Alagoas continua germinando. À frente o criativo professor José Medeiros, liderança nacional, a Sobrames almeja sempre mais. Face sombria da mesma moeda, hoje, um dos grandes desafios da classe médica é tentar uma convivência digna com o SUS. Com efeito, incapaz de prestar uma assistência médica decente, o SUS explora impiedosamente o trabalho dos profissionais. Nem por isso justificam-se as reiteradas denúncias de má conduta de alguns profissionais. Certamente, não fazia parte dos sonhos dos idealizadores da faculdade passar por semelhantes vexames. (*) É médico e professor da Ufal.