Opinião
O rapto do Dr. Bastinho
| José Maurício G. Brêda * A propósito da investidura do Dr. José Sebastião Bastos na F.A.F. , recordo-me de 34 anos atrás. Encontrei Bastinho na rua Augusta, início da tarde, e convidei-o para irmos até uma empresa próxima, onde esperava conseguir, com um amigo azulino, um carro com motorista. Era projeto tirar o CSA da situação em que se encontrava ? Herói do Sertão ? e guindá-lo para outras águas. Bastinho era e ainda é o homem mais forte da CBF em nosso Estado. Em Recife, pontificava outra força do futebol nordestino, Rubem Moreira. Sabia-se que Rubem nutria uma antipatia pelo CSA, por um desentendimento com o coronel Nilo Floriano Peixoto, quando este era presidente do azulão. Com a presidência em minhas mãos senti a necessidade de uma aproximação com o vice-presidente da CBF para o Nordeste. E a ligação era meu amigo Bastinho, coisa que sempre soube fazer com muita diplomacia. Tanta que eu desconfiava, mas não podia afirmar, da sua simpatia pelo nosso maior adversário. A nossa sorte era sua esposa, torcedora do CSA, a quem não podia contrariar. Mas de minha parte, a irreverência e a impetuosidade dos meus 29 anos, não mediam conseqüências. Dispondo de carro e motorista, convidei Bastinho a irmos a algum lugar, que hoje não me recordo qual. Já ciente do roteiro, o motorista levava-nos a Recife e só nas proximidades do Aeroporto Zumbi dos Palmares meu ?raptado? perguntou se ainda estávamos longe do destino. Pedi-lhe calma e continuamos, graças a sua grande e infinita paciência. Quando já não mais podia esconder minha intenção, revelei-lhe e, qual surpresa, o diplomata mais uma vez se fez mostrar. Sua única preocupação era com dona Gerba, que nada sabia sobre a agora ?nossa? aventura. Não preciso dizer da maneira com que fomos recebidos por Rubem Moreira. Só aí pôde Bastinho, com um telefonema de Rubem para dona Gerba dizendo que estava com ele uma pessoa que ela muito gostava, justificar a sua esposa e relatar essa loucura por mim perpetrada. Loucura que me fez conhecer uma figura questionada do esporte, que se tornou um amigo de quem, até hoje, reverencio a memória, pela sinceridade e honestidade de princípios. Só sendo amigo e compadre de Bastinho. Ainda guardo a lembrança dele e de sua esposa, dona Branca, a qual apelidei de dona Bronca, pelas puxadas de orelha que dava em Rubem, quando de suas estadas em casa de nossa família, em Riacho Doce. Gozando dessa intimidade, pude conhecer os meandros do nosso futebol, uma vez que estes dois nordestinos formavam as colunas de uma estrutura maior que era João Havelange, também compadre de Bastinho. Tive a oportunidade de, em uma visita a Maceió, ser recebido e solicitar-lhe conselhos e apoio para meu clube de coração, no que sempre fui atendido. E não é à toa que Bastinho ainda hoje continua como vice da CBF e, no auge de seus oitenta anos, é chamado para intervir na federação de que foi e nunca deixará de ser presidente. (*) É ex-presidente do CSA.