Opinião
Em nome do pai e do filho (1)
| Maurício Moreira * A família é a matriz da sociedade, daí porque considero que a injustiça mais contundente é aquela que ocorre no seio dessa célula primeira, de onde decorrem as outras ramificações da sociedade: um erro que parta dessa fonte, clamará por justiça, através de todas as gerações. A minha vida teve muitas interferências e muitos revezes, também, é claro, momentos de felicidade. Nesse sentido, guardo, no fundo do meu coração, a mais doce lembrança que tenho da figura de mãe, que foi a minha avó paterna. Quando ela partiu para a eternidade (tinha 10 anos de idade) eu me senti órfão pela primeira vez. No momento em que, por uma impossibilidade de convivência, meus pais se separaram, fiz minha primeira opção de menino: morar com meu pai. Nessa nova situação, uma irmã do meu pai (Tia Diva) passou a exercer a função de minha mãe, até o falecimento do meu pai. Por ocasião dessa irreparável perda, meu avô mandou me buscar para perto de si, e, pelo conhecimento que possuía da ligação profunda entre meu progenitor e eu, ele sentiu, fortemente, o peso do meu sofrimento. Naquele instante, olhando nos meus olhos, ele me disse: ?De hoje diante, além de ser seu avô, serei também seu pai?. Na intensa dor que eu experimentava naquele momento ? a maior que senti até então ?, contei com o apoio da segurança que emanava daquele homem forte, que já dera reconhecidas provas da sua integridade de caráter e do seu amor por mim. Depois da morte do meu pai, a minha tia, Dilma Moreira Canuto (outra irmã do meu pai), passou a exercer o papel de minha mãe. Eu tinha então treze anos (1973) quando aconteceu, no Juizado de Menores, a audiência que determinou uma série de fatos, que vivencio até hoje. Tal fato ocorreu, porque eu havia feito opção por uma realidade diferente daquela que estava determinada para mim, desde o berço. Por essa escolha, pago até hoje. Nesse momento crucial, quando o dr. José Agnaldo (hoje, desembargador aposentado) atuou como Juiz, e proferiu a sentença justa, que tinha como objetivo a proteção de uma criança comum ? eu ? um simples filho de Deus. Como órfão que fui, ainda muito criança, posso entender, hoje, como adulto, a profundidade daquele grito do Cristo, Filho de Deus feito Homem, por ocasião do seu martírio: Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? (Mateus, 27:46). Se Cristo, que é Filho de Deus, lançou esse terrível grito de socorro ao se considerar abandonado, que dizer de uma criança de doze anos, que se sentiu, mais de uma vez, numa condição de orfandade? (*) É empresário.