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Quiabos em �gua quente

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| Ronald Mendonça * Personagem em busca de um autor, segundo a impecável definição do jornalista Pompeu de Toledo, da Veja, o filósofo e professor radicado nos Estados Unidos Mangabeira Unger está na mira de respeitáveis comentaristas e de abusados palpiteiros. Colunista da Folha de São Paulo, crítico ácido do governo Lula, o professor de Harvard, para espanto geral da nação, acaba de ser cooptado pelo presidente brasileiro para ocupar a Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo. Em outras palavras, é ministro, ou quase, de um governo que até bem pouco era por ele cunhado como um dos mais corruptos de toda a história. Hoje é lulista desde criancinha. É claro que o caso do professor Unger está longe de ser o primeiro, muito menos o último. Aqui mesmo na província, alagoanos um pouco mais velhos guardam lembranças de assanhados colunistas que marcaram época escorraçando impiedosamente o governo. Como num passe de mágica, do dia para a noite, esses caras viraram cordeirinhos, descobrindo virtudes onde antes só havia defeitos. Se houvesse necessidade, doariam as próprias vidas em prol do novo guru. Pareciam quiabos em água quente. A esse respeito, recordo uma cooperativa de produtores de sururu, na longínqua infância. Em todas as reuniões, à semelhança das cooperativas de hoje, havia uns fulanos que ocupavam a tribuna só para meter o pau. O presidente, velho matreiro, apenas escutava. No dia seguinte, mandava chamar o revoltado e oferecia uma sinecura na diretoria. Daí em diante, o cara calava o bico e quando falava era para enaltecer. A coisa viraria uma rotina: um sujeito pedia a palavra e esculhambava com tudo. Dias depois, já estava mamando nas tetas da empresa. O fato é que de sinecura em sinecura, a próspera cooperativa dos produtores de sururu de Bebedouro acabaria falindo. Certamente, tudo isso deve fazer parte da complexa e incoerente natureza humana, antes de tudo darwiniana, tentando se adaptar para sobreviver. Quem somos nós, meros catadores de sururu, para julgar o comportamento desses sabidões? Falando em coerência, Bento XVI pisou a Terra de Vera Cruz. Longe muitas léguas da figura carismática de João Paulo II, instigado a falar ainda no avião, sem demonstrar temor à polêmica, Ratzinger, dentre outras coisas, deu o recado tradicional da Igreja: não contem com ele para legalizar o aborto. Quanto a Lula e Mangabeira Unger, quem sabe, no fundo, no fundo, eles se merecem e se completam. (*) É médico e professor da Ufal.

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