Opinião
Marcha pela paz
| José Medeiros * Leio, em jornal de Estado vizinho, notícias sobre adolescentes nordestinos que são recrutados por traficantes de drogas para esse tipo de comércio, no Sudeste do País. Para esses adolescentes, este poderá ser o primeiro, e, possivelmente, o último emprego. O aliciamento é realizado nas favelas, cuja situação é sempre de pobreza e desamparo. O que mais preocupa, nisso tudo, é que vamos, gradualmente, perdendo a capacidade de nos indignar e de questionarmos o verdadeiro porquê dessa realidade. É fácil entender que o pano de fundo desse cenário é a exclusão social e suas catastróficas conseqüências. Adolescentes que não vão à escola, que passam fome e não têm uma cama quente para dormir; muito menos, profissionalização, trabalho e noções de cidadania. O que os aguarda ? se incluídos no tráfico de drogas ? é algo próximo à imagem que tenho do que seja o ?inferno?, sem nenhuma conotação religiosa: drogas, assassinatos, prostituição, maus-tratos, e, conseqüentemente, graves desvios de conduta e mortes prematuras. É ?acaciano? repetir que a crescente onda de violência vem assustando e preocupando a população. Discussões se repetem. No Congresso Nacional: propostas de aumento de penas, redução da maioridade penal e um amplo leque de leis vigentes. Porém, na atual situação, em que a cidade é agredida por numerosos assaltos, seqüestros, homicídios e arrastões clama-se por providências imediatas. Estamos prisioneiros em nossas casas, perdemos a liberdade de transitar em muito dos espaços públicos que utilizávamos. Temores... Receios... Medos que desconhecíamos. Desconfiança do indivíduo, de cara amarrada, que transita ao nosso lado. Preocupação com os filhos que vão à escola. A violência passou a ser tema predominante em todas as reuniões familiares. Como preocupações e estresses geram neuroses, consultórios de especialistas já abrigam um fluxo maior de clientes. São inúmeras as reações da sociedade civil. Nas últimas semanas, desenvolve-se um processo de adesão a uma grande Marcha pela Paz, patrocinada pelo Rotary Clube Maceió, que se alarga no entrelaçamento de outras unidades rotarianas, OAB, clubes de serviço, organizações não-governamentais, escolas e entidades representativas da população. Essa marcha é uma forma pública de mostrar que a preocupação é geral e o quanto se deseja o retorno à segurança e à tranqüilidade. Indo além, é oportunidade de reflexão sobre os graves atentados contra a paz, guerras sucessivas e agressões ao meio ambiente, que ocorrem em boa parcela do planeta. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.