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Opinião

Criaturas magn�ficas

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| Roberto Wanderley * Se Jesus voltasse ao mundo, seria novamente amado e odiado, cuspido e recrucificado, e alguém ? certamente ? limparia seu rosto apaixonadamente. Poucos ficariam ao lado do mestre. O rei dos judeus, pela segunda vez, seria tratado como um Zé Ninguém. Os príncipes da globalização diriam que seus espermas poderiam produzir milagres pela onipotência da economia. Mas o mundo ainda precisa de romantismo e meiguice; a ciência é burra e chata porque não admite lágrimas; o cartão de crédito de um megaempresário não estimula poesia diante dos olhos de uma prostituta. Elas preferem jovens atléticos, filósofos de botequins ou maloqueiros sexualmente bem dotados. A cama é o único lugar onde cientistas abraçam Deus e renegam Charles Darwin. Dinheiro separa pai e filho, marido e mulher, bandidos e bandidos que lutam pela supremacia. O Sertão é um bom lugar para se falar de amor e ódio, de desgraça e esperança, de políticos que se atraem e se repelem, combatendo pelo domínio da próxima eleição. Produzimos ?Padre Ciço?, Lampião e Antônio Conselheiro, Graciliano Ramos, e muitos outros que a história precisa resgatar. Quase todos sertanejos e nordestinos, apaixonantes como flor de alecrim que nascem matando a aridez do campo, homens consumidos e reprimidos pela realidade cultural e econômica daquele tempo. Havia honra e vergonha, canalhice comum e safadeza histórica, ladrões de galinha e ?homens grandes? apodrecendo tudo. Havia de tudo, mas tudo era diferente; até na bandidagem havia um código de ética, não havia tanta brancura, mas o submundo respeitava limites. Agora tudo se banaliza e globaliza. Qualquer coisa podre pode ser entronizada no reino unido do agronegócio. Quem ficar fora desse círculo socialmente criminoso é taxado de sertanejo preguiçoso e vagabundo. Ninguém ameaça uma revolução armada, uma utopia só sonhada ao lado de raparigas nas noites de verão: a dignidade dessas mulheres se sobrepõe às alturas de muitos que transitam pelo Congresso Nacional. Queremos plantar e exportar, cultivar só para comer nos torna bucha de canhão para coronel que se diploma em universidade de balaio. A honra de nossas mulheres não está debaixo das saias. Nossos filhos só terão dignidade aprendendo o caminho de libertação pela educação política. Cacimbinhas é um bom lugar para refletir sobre desgraça e esperança. Dá vontade de dizer que Lampião e Conselheiro eram criaturas magníficas... (*) É escritor, jornalista e ex-prefeito de Cacimbinhas.

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