Opinião
Respons�veis e v�timas
HUMBERTO MARTINS * Os telespectadores da TV Globo que têm alguma noção de jornalismo profissional há muito se perguntavam: quem é o repórter que documenta com tanta precisão desonestidades cometidas contra os cidadãos nas mais diversas atividades? Quem é o defensor público encarnado em jornalista que desce a tantas minúcias, penetra em antros tão perigosos, e sai com resultados documentados e irrefutáveis? Quem é que substitui, com êxito, a ausência ou a apatia das autoridades? Só quando a tragédia aconteceu, o telespectador interessado em técnicas jornalísticas, juntamente com milhões de outros brasileiros, conheceu a face e a história de Tim Lopes, sem dúvida, o mais competente jornalista investigador do jornalismo brasileiro. Ele não se interessava pelos grandes escândalos financeiros, pelas concorrências viciadas, pelas privatizações suspeitas. Deixava aos seus colegas da editoria política o tráfego pelos corredores importantes do Poder, pois o que lhe interessava era o sentimento popular, o que lhe movia eram as queixas dos moradores dos bairros pobres, das favelas, o desespero dos consumidores cotidianamente enganados, a lamúria dos motoristas que, ao invés de serem garantidos pela polícia, são assaltados nas estradas. É tradição denominar-se a imprensa de quarto poder, o que, à primeira vista, talvez denote certo exagero. Mas no Brasil, onde a ação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário se faz algumas vezes, de maneira incompleta, a ação da imprensa, defendendo o interesse público, denunciando irregularidades, apontando violência, é mesmo o exercício de um poder, indispensável, imprescindível, constituindo, assim, em atividade da defesa da cidadania. Pois qualquer indivíduo que se debruçar sobre os escândalos neste País nas últimas décadas verá que eles não teriam sido apurados se não houvesse a denúncia de um jornal, de uma televisão, de uma rádio. O assassinato do repórter Tim Lopes desnuda para o Brasil e para o mundo, para os que, por omissão, conivência ou cumplicidade fingem não saber, a existência de Estados paralelos dentro do Brasil. Na verdade, as elites públicas e privadas brasileiras se acomodaram, quando precisavam ter transformado em absoluta prioridade o combate à violência e à marginalidade onde ela se alimenta. Episódios como o do assassinato do repórter Tim Lopes causam comoção, revolta, anunciam-se providências, mas depois as coisas voltam à rotina e ao marasmo. Afinal de contas, são longas décadas de policiais desaparelhadas, justiça sobrecarregada, presídios indigentes. Até quando essa tragédia se arrastará? Cabe a nós brasileiros, responsáveis e vítimas, responder. A morte de Tim Lopes não deve ser vista como uma intimidação, e sim, como um alerta em defesa do povo brasileiro contra a impunidade, despertando os governantes e governados no combate à violência social. A exclusão social não será vencida com, apenas, a vontade de um, mais com a participação de todos, na consolidação de um país mais humano, justo e igualitário. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/AL