Opinião
Encarcerados dom�sticos
| Marcos Davi Melo * Um casal de colegas médicos tinha entre os seus mais acalentados momentos de lazer, a ida nas sextas-feiras à noite a um restaurante, onde, em uma mesa discreta, no canto, se curtiam um ao outro; tomavam um vinho e comiam uma massa. Aproveitavam para iniciar o relax indispensável do fim de semana e para botar a conversa em dia, pois o corre-corre da semana já não permite que os casais tenham tempo para conversar entre si. Como ambos têm uma longa, laboriosa e vitoriosa carreira na medicina, às vezes no sábado também saiam para jantar fora, quando então mudavam de restaurante. Há algum tempo atrás, o carro deles foi levado por assaltantes e nunca mais se viu. Paralelamente, irrompeu a fase de assaltos aos restaurantes de Maceió, que tanto tem atormentado a cidade. O casal de médicos parou de sair à noite. Agora pede a comida por telefone e come em casa mesmo. Embora um se baste ao outro, a saída de casa para mudar de ambiente é benéfica, ajuda na indispensável descontração. Para um casal que convive junto há bastante tempo é como se momentaneamente voltassem a ser namorados. Este casal não é o único que foi forçado a se entocar em casa por força da insegurança e da violência que campeiam em Maceió. Muitos outros também o fizeram, com grandes prejuízos para o setor dos restaurantes e para o turismo. Ao mesmo tempo, quem é o pai consciente que hoje vê um filho sair de casa a noite e dorme tranqüilo? E haja recomendações, alertas pra ter cuidados com tudo. Até os filhos voltarem é uma insegurança e uma angústia. Muitos só dormem quando eles voltam para casa. No último fim de semana vimos pela primeira vez a orla repleta de policiais militares. Patrulhas e viaturas circulado. Policiamento ostensivo presente. Iniciativa salutar, que já deveria ter sido tomada há mais tempo. Mas existem perguntas ainda sem resposta: isto vai perdurar? Se a polícia for chamada para intervir em um evento violento, vai agir com a necessária presteza, rigor e empenho? Existe ou não um flagrante desinteresse, uma real desmotivação em nossa polícia? O generoso aumento de salários para a cúpula, não repassado à tropa, não acentuou esta tendência para a acomodação, à passividade? O sufoco que a sociedade e os restaurantes têm passado em Maceió é inaceitável. Os prejuízos são incomensuráveis, inclusive para o turismo, uma das nossas únicas perspectivas de desenvolvimento. Tudo, mas tudo mesmo deve ser feito para evitar que todos se sintam uns encarcerados domésticos. (*) É médico e professor da Uncisal.