Opinião
Autocr�tica em Graciliano

DOM FERNANDO IÓRIO * Pessoa alguma esclarecida pode negar o apuro vernáculo na obra de Graciliano Ramos. A preocupação formal revela-se ao longo de seus romances, desde Caetés, com algumas expressões vulgares, até São Bernardo, Vidas Secas, Infância e Memórias do Cárcere, que bem refletem a maturidade da obsessão pela forma. Escrever bem e certo é a preocupação dominante de Graciliano Ramos ao dar corpo aos seus romances, ao apresentar a angústia, a miséria, a revolta, o desespero e as vidas secas de suas personagens. Por isso mesmo, talvez encontremos críticas severas de seus actantes à maneira de cada um expressar suas idéias de forma vernácula. Em Caetés, relendo João Valério uma página do romance que está elaborando, autocritica-se: ?prosa chata, imensamente chata, com erros... E eu supus concluir aquilo em seis meses. Que estupidez... Corrigi erros... Cortei 2 advérbios... e passei meia hora com a pena suspensa?. Na mesma linha escreve Evaristo Barroca, com severidade, criticando seus próprios artigos: ?Escrevi os artigos de um fôlego... Não me sobra tempo para cultivar a língua vernácula. Aí só se aproveita a idéia, a forma é incorreta. Emendem?. Por sua vez, comenta João Valério esses artigos com furor: ?Desdobrei as tiras e li burrices consideráveis... recheadas de adjetivos fofos?. Ele mesmo fornece receitas de bem escrever, na autocrítica: ?admiração exagerada às coisas brilhantes, ao período sonoro, às miçangas literárias, o que me induz a pendurar no que escrevo adjetivos de enfeite, que depois risco...? Em Angústia, aponta Luiz da Silva em Julião Tavares: ?linguagem arrevesada, muitos adjetivos pensamentos nenhum... linguagem pulha?. Em São Bernardo, Casimiro Lopes ?tem um vocabulário mesquinho. Julga o mestre-escola uma criatura superior, porque usa livros, mas para manifestar esta opinião... dá um pequeno assobio. Gagueja... Naquele dia... só conseguia dizer que as onças são bichos brabos e arteiros. Pintada. Dentão grande, pezão, cada unha! Medonha!? O narrador de Vidas Secas mostra Fabiano utilizando ?nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos: exclamações, onomatopéias; ao mesmo tempo apresenta Sinhá Vitória estirando o beiço, indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto?. Trata-se de certas falas de tipos primitivos narradas em discurso indireto livre, mostrando, já aqui, a condição social de cada um. O mesmo encontramos, em reprodução direta no caso de Luiz da Silva e os freqüentadores de um botequim, em Angústia: ?As minhas palavras não tinham para eles significação. ... aquelas pessoas entendiam-se perfeitamente. Eu é que não podia entendê-las... Eu era um sujeito de fala arrevesada e modos de parafuso?. Toda essa autocrítica ou crítica entre as personagens e o narrador parece revelar no autor uma valiosa introdução para a obsessão da forma, para a preocupação formal na elaboração de seus romances. Na verdade, ao contrário de muitos romancistas da década de 30, que, influenciados pela revolução literária de 22, desprezavam a pureza da linguagem e a preocupação formal, vem Graciliano produzir uma obra de relevante apuro vernáculo, sem os traços arcaizantes de um Machado de Assis, mas com uma prosa recriada num mais acentuado sabor brasileiro. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS