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A intertextualidade da “Inven��o de Orfeu”

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| Dom Fernando Iório * A maior obra inventiva do poeta alagoano, Jorge de Lima, foi Invenção de Orfeu. Pertence ao acervo dos maiores poemas da literatura universal. Em Invenção de Orfeu, dentro da intertextualidade, encontramos aquele processo de criação literária que chega a bordejar os limites do plágio, uma vez que parece romper as margens da intertextualidade, como se o poeta brasileiro houvesse trabalhado sobre um palimpsesto, apagando uma e outra palavra, substituindo-as, modificando-as ou aproveitando-as integralmente. Façamos então uma comparação entre Invenção de Orfeu (VI, VIII) e a Eneida de Virgílio (Livro II). ?De pesada armadura, um velho o ventre/trêmulo veste, inútil gládio à cinta,/e entre o torpe inimigo a morrer parte./Quem de Cidades cem reinou soberbo/É cadáver; nas ruas o último ato/Corre exangue, dos crânios decepados?. (Invenção de Orfeu, VI, VIII). Comparemos agora o texto de Jorge de Lima com a estrofe da Eneida de Virgílio. ?De ociosa armadura o velho os ombros,/Trêmulos veste, inútil ferro à cinta/Entre basto inimigo a morrer parte,/Quem d?Ásia em povos cem reinou soberbo/É cadáver. Na praia o corpo informe/Jaz sem nome a cabeça destroncada?. (Eneida, Livro II). Nos dois textos, as palavras grifadas indicam os pontos de contacto ao nível do fonema, do morfema, da palavra, da frase e das figuras, chegando ao palimpsesto, onde um texto transparece o outro. Em Invenção de Orfeu encontramos uma imensa área para o estudo da intertextualidade, chegando mesmo às raias do palimpsesto. Em tudo isso, não deixou Jorge de introduzir, na sua poesia, a religião. Ele mesmo o confessou a Alceu Amoroso Lima, que o visitara a menos de um mês da sua morte. ?Como vai, Jorge??. Perguntou-lhe o grande crítico, seu companheiro de geração católica. E a resposta tranqüila do poeta: ?Preparado para entrar na eternidade?. É, ele estava mesmo preparado para a visão eterna de Deus, como poeta e cristão. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.

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