Opinião
Multiculturalismo ou oportunismo
| Ana Cláudia Laurindo * As questões multiculturais estão em todas as sociedades, adquirindo uma dimensão planetária. Por essa razão não podemos abdicar a problemática das crescentes desigualdades, que configuram subjetividades, mentalidades e práticas excludentes, comprometendo a caminhada humana pela pós-modernidade. Cada parte do planeta lida hoje com situações antigas, de raiz multicultural. A França está sendo sacudida por movimentos periféricos, que muitas vezes adotam posturas radicais, na luta pela conquista de uma identidade legítima que há muito vem sendo negada. Provando que não é possível negar a existência das desigualdades para sempre, sem que o outro lado reaja. Na América Latina, de modo particular no Brasil, emergem os gritos do passado e do presente, denunciando massacres, dizimações e exclusões de populações indígenas e negras. Pois temos uma história marcante de negação física do outro e da sua cultura. Como objeto de estudo, cultura é um conceito polissêmico e traduz variados aspectos de realidades complexas, globalizadas. Essa globalização que traz preceitos hegemônicos, também favorece a afirmação de preceitos contra-hegemônicos, que são oposição às políticas de dominação. Globalização hegemônica: imposição dos interesses de grupos mais poderosos a grupos subordinados. Globalização contra-hegemônica: defesa de interesses comuns de grupos excluídos e a priorização de temas emergentes e planetários. Desta forma fica mais fácil perceber que nem todos os que discutem multiculturalismo no mundo o fazem com o mesmo senso de luta comum. A forma mais comprometida com a dominação é aquela que sugere uma produção em série de condutas servis. Buscando eliminar o que não a representa, nem a seus interesses, propondo benesses aos seguidores. Descaracterizando a voz antes contrária. Vale a pena atentar para esse caráter ambíguo das discussões multiculturais, já que ela permite a abertura de imenso leque de interesses; onde muitas vezes, se cruzam representantes da militância social, acadêmicos, politiqueiros de plantão e conservadores das exclusões. Cada qual com sua ótica pessoal referendada pelos grupos aos quais estão vinculados. Os mais salutares, recusam as perspectivas liberais que visam conduzir pela superficialidade sem mudar nada, e se voltam aos estudos e práticas diferenciadas, capazes de contribuir para o acréscimo do conhecimento sobre a temática da igualdade nas diferenças, e a mobilização da sociedade em busca de histórias mais abertas e igualitárias. (*) É cientista social.