Opinião
O sofrimento e a conscientiza��o
| Gilberto de Macedo * O sofrimento é a dor afetiva que se sente pela perda de algo que tem valor para si: perda de um ente querido, rompimento de uma relação amorosa, desenlace familiar, e perdas de outras naturezas: uma situação na vida, uma frustração de um ideal, ou mesmo, em menor grau, a perda de um objeto de estimação significativo que diz da lembrança inesquecível. Sofrer é próprio da condição humana. Ninguém está isento de passar por essa indesejável experiência. Cabe, pois, dizer com Montaigne: ?É preciso aprender a sofrer o que não se pode evitar?. Desse modo, importa a cada um, diante dessa ocorrência íntima, e em face de sua causalidade motivadora, dar-lhe o sentido próprio, conforme as característica pessoais. Dar um destino ao sofrimento. Pois, há os que se deixam dominar, e caem no desânimo do desalento na solidão inerte, e chegam ao desespero da revolta. E há os que, dotados de fortes e elevados mecanismos de defesa, fazem do sofrimento motivo para se aperfeiçoar, especialmente através da purificação religiosa e por meio da sublimação intelectual num processo de metamorfose sentimental na criatividade das artes, na dedicação ao trabalho científico, e no envolvimento do pensamento filosófico. E ainda numa tarefa de solidariedade humana voltar-se para colaborar com os ideais de justiça, a serviço dos carentes e dos necessitados. Tudo isso, enfim, que levou Anatole France, a dizer: ?O sofrimento que divino desconhecido!/Devemos-lhe tudo que bom em nós/Tudo que dá valor à vida, devemos-lhe/A compaixão, devemos-lhe a coragem/Devemos-lhe todas as virtudes?. Isso mostra o que pode haver de elevação pessoal no sofrimento. Embora não se deseje, o mesmo pode enriquecer a existência humana, isso pelo valor mesmo do que lhe deu motivo, em tal caso com um sentido de fidelidade e compreensão. É pelo despertar de toda a vida mental, um acordar para o significado e valor da vida, do papel a se desempenhar na sociedade, dos compromissos e responsabilidade. Sofrimento, portanto, que influi profundamente no futuro pessoal, conforme o que dele possa fazer o indivíduo afetado, pois, aí como dissemos, há uma especificidade reativa que determina o rumo seguido: em uns a doença, corporal ou mental, noutros, a distorção do comportamento com a revolta anti-social; e, noutros, a elevação da personalidade e, até na esfera social das nações, o que fez Gandhi afirmar que: ?País algum se elevou jamais sem ter se purificado ao fogo do sofrimento?. É o sofrimento coletivo da própria conscientização do povo inspirado no sadio nacionalismo patriótico. (*) É médico.