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Poderia ser pior

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| Ronald Mendonça * Refém de uma violência insuportável, com um nível de insatisfação que atinge grande parte da sociedade, Alagoas revive seus piores momentos de inferno zodiacal. Sob o impacto do vendaval que fez nossa terrinha cobrir-se de vergonha, lembrei-me de uma frase que ouvi não sei de quem: ?Poderia ser pior?. Na verdade, as patifarias expostas pela Operação Navalha não chegam a surpreender. É pura fantasia, contudo, imaginar que alguém será punido. Mergulhado no trabalho, aqui e acolá escuto de colegas bem situados na profissão (que elegem restaurantes da moda para relaxar duas, três vezes por semana) não ser de hoje que se deparam com figuras que despertam a atenção. Com efeito, do dia para a noite, os locais vips da cidade são invadidos por levas de comensais bem arrumados, cercados de guarda-costas, ora em pequenos grupos a sussurrar (tramar?), ora formando trêfegos comboios. O detalhe é que no final de tudo ninguém põe a mão no bolso. A ?dolorosa? é assinada para a ?viúva? pagar. Virou uma rotina enfadonha: a cada mudança de governo novas andorinhas pousam nos sites badalados da província. Comenta-se, ao longo das jornadas, que a administração pública, sob o comando de eminências pardas, estaria há anos infestada por rodízios de verdadeiras quadrilhas direcionadas a extrair o máximo dos bens públicos, num mínimo de tempo. O inconfessável desafio entre elas é ver quem consegue roubar mais. A filosofia é simples e direta: ?Esta oportunidade de tirar o pé da lama talvez jamais se repetirá. É agora ou nunca?. Os ricos de berço tornam-se milionários. (É papo-furado dizer que gente rica não rouba). É claro que a assiduidade em endereços do grand monde é apenas um dos sinais do novo status. De repente, os caras se tornam também raffinés. Pés de chinelo, criados com água de pote e guaraná Davino, acostumados à Sangria de Boi e ao vinho Dom Bosco, tocados pela varinha do cinismo, posam de pretensos sommeliers a doutrinar sobre vinhos encorpados, a aconselhar marcas e safras. Nada como o doce dinheiro da fraude. Falar na profusão de camionetes de cabine dupla e nas recorrentes viagens ao Velho Mundo seria ferir a alma do leitor. Não por acaso, nas praças e becos, de há muito se sabe que quem pretende construir edifícios ou condomínios de luxo não esquenta a cabeça por compradores. Basta agendar quem está à frente (e por trás) de órgãos que mexem com o dinheiro do contribuinte. Poderia ser pior... (*) É médico e professor da Ufal.

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