Opinião
A horta da Luzia
| Marcos Davi Melo * Maceió nos anos sessenta. Uma cidade calma, tranqüila e aprazível. No Centro tínhamos o Cinema São Luiz, com a sua seção de arte aos sábados de manhã. Saíamos mais cedo do Colégio Moreira e Silva e não perdíamos uma. Antes de começar o filme, Gildo Marçal ou Radjalma Cavalcante iam lá à frente e comentavam o filme que ia passar. Depois, no escurinho, entre um enigma de Antonioni, uma pantomima de Felini, um drama de Glauber, dava até para um xumbrego com a namoradinha que também era do colégio. Após o filme, um chope no bar de igual nome. Os outros cinemas funcionavam nos bairros: o Plaza no poço, o Lux no Prado, o Ideal na Levada e o Rex na Pajuçara, onde nas matinês de domingo existia um vigoroso comércio de troca de gibis usados. Nas seções noturnas, como não tinha ar-condicionado, os cinemas abriam as portas para a ventilação natural. Sempre entravam uns morcegos para dar uns vôos rasantes, xeretar de perto alguns namoros agarrados e assustar algumas moças menos precavidas. A praia preferida era a da Avenida da Paz. Certo tempo apareceu uma carioca loira, bonita e com saia muito curta, que também estudava no Moreira e Silva e freqüentava a praia. A Nara causou furor aqui. Mas pelo que sei não deu para ninguém, que os tempos ainda eram outros. Namoro era só amasso, normalmente não tinha sexo. Reservado para as piniqueiras. Descarrego das energias e dos hormônios da juventude masculina de então. A Pajuçara era um deserto e a Ponta verde só começou a existir quando abriram o Alagoinha. Na ocasião, os terrenos ali foram oferecidos a preço de banana. As opções das noitadas eram as tertúlias na Fênix, no fim de semana, com o Sambrasa e o Paulo Sá. Quem esquece do Zinga, do Presta e do bar do Doquinha, todos em Riacho Doce? Para matar a fome depois na madrugada, tinham as macarronadas do Bar do Gracy, do Eureka e do Parque Gonçalves Lêdo, nosso refúgio por muito tempo, depois que migramos da Pajuçara para o Farol. Mas, no carnaval tínhamos um reinado de Momo esplêndido. Maceió, dos anos sessenta. Dos aniversários, assustados e outras festinhas domésticas, para onde uma geração de rapazes tímidos e inseguros ia mesmo sem ser convidados e ainda eram bem recebidos e bem tratados. Maceió de então, uma província sossegada, onde os filhos podiam sair à noite, brincar, se divertir e os pais podiam dormir tranqüilos que nada de mal lhes aconteceria. (*) É médico e professor da Uncisal.