Opinião
Celeiro da literatura
| Ronald Mendonça * Arrisco-me a citar conterrâneos médicos que se tornaram expoentes da literatura. Alguns, como Jorge de Lima, venceram os limites da província e se fizeram reconhecer nacionalmente. O folclorista Théo Brandão é outro que ultrapassou os umbrais das nossas fronteiras expandindo sua verve aos quatro cantos do País. Como ele, o viçosense José Maria de Melo, alma e corpo de escritor, cujo DNA marcante explodiria no filho não médico Dênis Melo, notável autor de ?Por linhas tortas?. Ainda dentre os que já se foram, o historiador Abelardo Duarte não pode ficar ausente. Fundador da Faculdade de Medicina e seu diretor durante vários anos (inclusive no tempo em que lá estudei), Duarte legou-nos uma obra respeitável. Sem querer cansar o leitor com reminiscências, sintonizo-me no presente para, fazendo justiça, nomear algumas figuras da medicina que nos brindam periodicamente com impecáveis criações: Ib Gatto Falcão, Gilberto de Macedo, Agatângelo Vasconcelos, José Medeiros, Luiz Nogueira, Milton Hênio, Gisélia Campos, Mário Jucá, Rosiane Rodrigues, José Reinaldo, Ângela Canuto e tantos outros cronistas, historiadores, romancistas e poetas médicos (a lista é enorme) que com suas prosas e versos encantam, divertem, informam ou simplesmente opinam. Já se disse que médicos se tornam escritores por conta das vivências com o sofrimento humano. Escrever seria, portanto, como uma catarse ou um refúgio. Sob esse prisma de denominador comum é que os chamados médicos escritores e amantes das letras fundaram uma agremiação que os unisse e os abrigasse. Foi assim que surgiu em meados do século passado, em São Paulo, sob a liderança do cirurgião Eurico Branco Ribeiro, a Sobrames ? Sociedade Brasileira dos médicos escritores. A iniciativa difundiu-se País afora. Em Alagoas, a idéia materializou-se no final dos anos setenta tendo à frente Nabuco Lopes, Théo Brandão, José Medeiros, Geraldo Vergetti e mais um punhado de abnegados. A semente plantada há 30 anos, depois de conhecer o fastígio, ficaria durante um bom período em estado larvar, aguardando o momento exato de crescer, florescer e frutificar. Hoje realidade palpável, no currículo a realização de um Congresso Nacional, celeiro da literatura alagoana com a adesão de consagrados escritores ?não médicos?, a Sobrames Alagoas, mercê do empenho do devotado José Medeiros, é atualmente uma das mais ativas sociedades literárias do nosso Estado. Seu prestígio lá fora é impressionante. (*) É médico e professor da Ufal.