Opinião
O perigo das barreiras
| Marcos Carnaúba * Um fato marcante ocorrido em 1948, ano de fortes chuvas, permanece em minha memória como exemplo do risco de estabilidade de barreiras onde, no sopé e em cima, são construídas habitações e edificações diversas. Ruiu uma parte da encosta que compõe a barreira da Rua Barão de Atalaia soterrando diversas casas e vitimando pessoas conhecidas de meu pai . Maceió tem particularidades especiais de relevo que podemos resumir como parte baixa, de solos com predominância de areias, e parte alta com solos argilosos que têm uma espécie de ligante que nós engenheiros chamamos coesão. Os solos argilosos ? os barros como se diz popularmente ? absorvem água com lentidão tornando-se úmidos ao longo do tempo. A explosão demográfica em Alagoas ? um dos Estados de maior índice populacional do País com cerca de 100 habitantes por quilômetro quadrado ? fomentou o inchamento dos centros urbanos por excluídos que buscam trabalho e moradia, disso decorrendo o mau uso e ocupação do solo. Dessa forma surgiram as favelas que outrora não existiam em nosso meio e as edificações irregulares sobre barreiras e encostas instáveis, que o poder público não disciplinou ao longo de décadas. É muito comum vermos barreiras que se mantém estáveis, mesmo sob cortes verticais, com edificações em suas bordas cerca de trinta metros acima de vias de tráfego sem saberem os seus usuários dos riscos a que estão sujeitos durante e após a estação chuvosa. Está em área de risco qualquer edificação comum situada ao longo de uma faixa de solo cuja largura a mecânica dos solos estima em metade da altura da encosta. As chuvas começam a se infiltrar e geram rachaduras no terreno, paralelas à borda da encosta, delimitando o que chamamos cunha de ruptura, um sinal de alerta para a evacuação das áreas de riscos que englobam todas as edificações situadas em cima, na encosta ou na base dela. Há cerca de vinte anos uma comissão do CREA mapeou algumas dessas áreas e entregou o relatório ao poder público que, parece-me, não lhe deu a devida importância pois os deslizamentos têm gerado vítimas fatais e prejuízos diversos ao longo do tempo. Não devemos agir como bombeiros que são chamados para apagar incêndios ou socorrer vítimas, mas sim com um sério planejamento urbano, preventivo, que garanta a vida e o patrimônio dos cidadãos. Se chover, não durma! Nem em cima, nem embaixo ! (*) É engenheiro civil e consultor.