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Ren�ncia...

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GILBERTO DE MACEDO * Renúncia, em seu verdadeiro e autêntico conceito, é abdicar, expontânea, e conscientemente, de algo que tem importância afetiva para si mesmo. Portanto, um sentimento penoso, de perda no âmbito da afetividade. Ato doloroso de profundo sofrimento. Desfazer-se do que mais se deseja. Dói na alma. Se for perda imposta externamente, alheia à vontade, e forçada por decisão de fora ? social, legal, política, religiosa ? não é renúncia, mas, respectivamente, exclusão, demissão, expulsão, excomunhão. Precisamente, renúncia é atitude pessoal, da intimidade do ser, gerada nas profundezas da alma. É ato do coração magoado, pois leva à perda voluntária, do que mais se deseja. Daí que é o mais doloroso sentimento. É um adeus solitário e secreto, sem qualquer consolo, sem qualquer confidência. É que a renúncia da alma é mais triste que a renúncia física. Pois é pura, total, sem meios-termos; a do corpo, pode-se iludir, através de compensações parciais, mesmo ilusórias, ou enganosas. A renúncia da alma por ser afetiva é silenciosa e em solidão. Ninguém sabe; só o próprio renunciante, razão do grande poeta Schiller dizer que ?as grandes almas sofrem em silêncio?. Renúncia que o silêncio da solidão faz mais dolorosa. Sim, pois é no silêncio quando a solidão é absoluta; e é na solidão que a renúncia é mais profunda. Renúncia sem consolo é mais dolorosa. Sem o apoio de um diálogo, sem a solidariedade de uma companhia é mais martirizante. Daí a maior nobreza desse sentimento. Dor existencial! Um corte no coração! Pois é estado de grande perda afetiva, de algo singular e incomparável importância na esfera dos sentimentos. É se desfazer de um pedaço de si mesmo. Uma automutilação da alma; nos afetos que lhes são caros. O ferimento da alma dilacera mais que o do corpo. Não tem lenitivo. Expontânea, a renúncia magoa mais que qualquer outra perda pessoal, pois é uma ruptura na unidade do Eu, na essência mesmo do ser. Um desprendimento elevado, um sofrimento sublimado. É doação de coração e devoção de alma. Estoicismo! Sofrimento voluntário, para evitar que alguém sofra. É procurar o consolo na natureza, para não haver testemunha do motivo do ato. Renúncia de um amor determinado que leva, como diz o poeta Pablo Neruda: ?A procurar o amor na areia?. É feita como diz a música popular: ?Para acabar com a tristeza, para não te ver chorar...? Despedida invisível, que só os poetas sabem dizer. Renúncia ao desejo real para se encobrir na fantasia e, assim, poder sobreviver na ilusão do sonho, até se libertar um diz... Metamorfose do desejo em sonho! Afetiva e sincera, a renúncia pode significar o mais puro amor. É sofrimento sublime que se coloca acima da tristeza amarga. Um sentimento grandioso, de total altruísmo, difícil de se desenvolver na sociedade egoísta e interesseira dos tempos de hoje, onde o capitalismo é todo voltado para o lucro material. Daí a razão de Goethe ter dito: ?Nossa vida física, nossa vida social, costumes, hábitos, saber mundano, filosofia, religião, e até nossos conhecimentos casuais estão proclamando para nós: É preciso renunciar?. Renunciar diante dessa mania de egoísmo. Renunciar nas origens mesmo do desejo de um amor impossível. (*) É MÉDICO

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