Opinião
Os giros da roleta
| Ronald Mendonça * Há dois anos o País pararia para, estarrecido, acompanhar as bravatas de Roberto Jefferson e a arrogância do poderoso desafeto José Dirceu, o segundo na hierarquia do executivo federal. Na ocasião, a lama escorria pelos corredores palacianos afogando o Congresso, o Partido dos Trabalhadores, bancos privados, estatais, marqueteiros e outros tantos malandros e picaretas espalhados pelo torrão nacional. Mil artimanhas contra o erário foram diariamente denunciados e publicamente dissecados. Desabaram biografias até então respeitáveis ? como a de José Genoíno, fantasia da resistência armada contra o regime militar ?, enquanto sinistras figuras tais como Delúbio, Silvinho et caterva boiando e fedendo nas CPIs, montados em dólares e Land Rover, negavam o óbvio. De repente, não mais que de repente, cairia a máscara de um dos maiores blefes políticos que este país pagou para ver. O escândalo, inevitavelmente, chegaria ao presidente. A grande dúvida era saber o grau de comprometimento de Lula, uma vez que seria impossível que o principal inquilino do Planalto ignorasse a trama. Na enxurrada, anunciou-se a ?genialidade? de Lulinha Júnior, verdadeiro Bill Gates tupiniquim, negociando empresa de fundo de quintal a peso de ouro. Protegido por uma blindagem inexpugnável, para surpresa geral, o presidente confessou sua completa desinformação sobre o que ocorria a meio palmo do seu nariz. Pedindo desculpas à Nação pelos desvios de conduta dos companheiros, Lula lavou as mãos jogando às feras os dirigentes do PT. Foi conveniente para a população fingir acreditar na inocência presidencial. A cassação de Dirceu aplacaria a sede de sangue do populacho. Pouco depois, um a um dos mensaleiros receberia do Congresso certificado de bom garoto. A reeleição de Lula marcaria o aparente fim da crise. Como diria dom Fernando Iório, não há negar: a estrutura do País está carcomida. Nesses poucos meses de 2007 em apenas 3 operações a PF revela a extensão do problema: a Furacão, envolvendo juízes e ministros; a Navalha (e seus novelescos desdobramentos) denunciando enriquecimentos relâmpagos e promíscuas relações de empreiteiras, políticos e gestores públicos; a última, desta semana, apelidada de Xeque-mate, eviscera o submundo dos jogos ilegais. O detalhe sórdido agora é o envolvimento de Vavá, irmão mais velho de Lula, acusado de tráfico de influência, além de um querido compadre atolado até o pescoço na contravenção. (*) É médico e professor da Ufal.