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O apito e a barata

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| Marcos Davi Melo * Depois de mais de 12 anos como membro titular do Conselho Estadual de Saúde, foi a primeira vez em que compareci a uma de suas reuniões e não existia cadeira para se sentar. Antes das 14 horas, horário previsto para o início dos trabalhos, o amplo auditório do Centro Formador já estava superlotado, ocupado por desesperados funcionários do Hospital José Carneiro (HJC), que afinal, depois de longa agonia, cerrou totalmente as suas portas, deixando os seus 790 trabalhadores, entre médicos, enfermeiras, psicólogos, nutricionistas -- embora funcionários públicos concursados e ganhando os seus salários -- sem ter lugar para trabalhar. Em seu depoimento dramático, o médico Carlos Lobo, que representava a direção do HJC, relatou que na época em que se preparavam as reformas e ampliações da UE, fez todos os alertas e apelos às autoridades do governo passado de que isto que está se passado agora ? não só em relação aos 790 funcionários como também em relação à desativação dos imprescindíveis 140 leitos que o HJC dispunha para o SUS ? poderia ocorrer, caso não se reavaliasse a execução das obras. Segundo ele, houve total insensibilidade aos argumentos alocados. Os médicos do serviço público estadual enfrentam uma greve, que embora declarada ilegal pela Justiça, tem todos os atenuantes humanos possíveis a justificá-la: profissionais preparados, que têm na execução de suas atividades tanto estresse, têm em suas mãos tantas responsabilidades, entre elas as vidas humanas ? e ganham uma miséria, como os médicos do serviço público estadual. Ao contrário de outras categorias, que têm outras armas, inclusive de fogo, para convencer as autoridades da justeza de seus argumentos, os médicos usam apenas inocentes apitos, como índios desprezados por uma sociedade que só lhes cobra, só lhes exigem e não lhes reconhecem os esforços, as dedicações, os desgastes. Fechando uma semana caótica, a televisão mostrou em rede nacional, que durante uma visita do Ministério Público à UE, uma teimosa barata circulava perto de remédios. Este quadro deprimente não deveria existir, principalmente porque determinada ?mídia? alardeava até pouco tempo atrás que em Alagoas existia a melhor gestão em saúde pública do País. Para não se cometer injustiças, reconheça-se: o caos ora vivido não é uma situação gerada neste governo, mas conseqüência não só de financiamento insuficiente, como de acúmulo de gestões perdulárias, tão vaidosas quanto inconseqüentes. (*) É médico e professor da Uncisal.

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