Opinião
Balas criminosas
| Dom Fernando Iório* A expressão ?balas perdidas? tornou-se parte da terminologia da violência urbana. Estou em que não se trata de ?balas perdidas?, senão de ?balas criminosas? atiradas para causar a morte. Indicam uma realidade cada vez mais cruel, na medida em que não só deixam um rastro de dor, mas, certamente, vão produzir mais vítimas, já que se trata de ?balas criminosas?. Na verdade, o conceito mais largo e apropriado para descrever o que se passa no confronto entre policias e criminosos nos morros das favelas é o de guerra, onde se atira para matar, mesmo que se trate de inocentes. As balas, que se dizem perdidas, são criminosas. Que bom aprendessem os litigantes a atirar pétalas de rosas, perfumando favelas e ruas com o aroma do amor. Especificamente, em relação à guerra contra os traficantes residentes nos morros ou nas favelas, o termo ?perdidas? aplicado às balas que são endereçadas aos criminosos ou aos agentes da lei, ganha sentido trágico, pela simples razão de que o campo de batalha dessa guerra são os próprios bairros onde milhares de pessoas são obrigadas a viver, são as ruas pelas quais elas têm de passar, procurando o ganha-pão da sobrevivência. Vale repetir: as cenas de balas criminosas atingindo cidadãos que cumprem seu dever profissional não são ficção, mas o que acontece quase - cada dia. Revolta, medo, perplexidade à parte. Existem várias perguntas a respeito dessa grave questão que devem ser feitas e para as quais não vamos obter respostas prontas: - que é que os moradores de locais onde se instalam os criminosos têm a ver com a luta entre polícia e bandidagem? - Ainda, caçar os fora-da-lei é imperativo para garantir a ordem e o bem-estar público? - Como fazer isso, sem colocar em risco a vida dos inocentes? - ou ainda: como combater, de modo eficaz, os criminosos audaciosos que agem à luz do dia, superarmados? São tantas as questões de segurança quantas as soluções difíceis e complexas desafiando os executores da lei e a capacidade de quem tem o dever de resguardar direitos e a vida das pessoas de bem. Até quando vai perdurar o desafio? Até quando estará a vida de inocentes sob a ameaça de ?balas criminosas?? (*) É bispo emérito de Palmeira dos Indios