Opinião
Garc�a e Suassuna
| Eduardo Bomfim * Nestes dias, duas notáveis figuras originárias das línguas portuguesa e espanhola completam 80 anos de idade, de resistência literária e uma produção intelectual excepcional. Reafirmando sempre, nadando contra a maré, as nossas identidades, as nossas principais fronteiras nacionais, as permanências e as renovações de um povo, a tradição e o novo. Sem as quais não se é nada. Estado, nação, sem história ou uma língua em comum, são um amontoado de seres habitando determinado pedaço de terra, não se constituindo em país, atomizados, em grupos familiares ou mesmo tribais. Narra-nos o escritor mexicano Carlos Fuentes: ?Acredito na América Ibérica, as águas do Mediterrâneo fluem do Bósforo, na Turquia, e da Andaluzia, às Antilhas e ao Golfo do México. Mar de encontros e civilizações, principalmente o legado de 800 anos de arquitetura, música, ciência, dos povos árabes na Ibéria, que maravilham os viajantes de ontem e hoje?. Por isso, o poeta pernambucano João Cabral de Melo derrama, apaixonado, poesias sobre Sevilha, comparando-a às terras áridas do sertão brasileiro com uma intimidade de um andaluz nascido, quem sabe, nas inclementes regiões deste Nordeste que produz personagens assemelhados aos de El Greco, observa e afirma Gilberto Freyre. Diz-nos Fuentes que somos majoritariamente mestiços, filhos do encontro, do sofrimento civilizatório ibérico, ameríndio e africano, gestando um povo singular, para o horror dos multiculturalistas embevecidos com o apartheid civilizado de origem norte-americana tão em voga nos dias de hoje. É propagado, aliás, como o alfa e o ômega, através da grande mídia e das políticas afirmativas, institucionalizadas nos Estados Unidos da América, como instrumento de equalização e compensação de uma violenta segregação que atravessou os tempos e provocou a gigantesca luta pelos direitos civis em meados do século 20, liderada por Luther King. Enfim, surgiram Heitor Villa-Lobos, Portinari, a pintura de Orozco, Frida Kahlo, o cinema de Emilio Fernández e Nelson Pereira dos Santos, a arquitetura de Oscar Niemeyer e Luis Barragán, a obra de Chico Buarque. Ariano Suassuna e García Márquez, colombiano, são grandes expoentes de uma civilização em fazimento. A Pedra do Reino, e os Cem Anos de Solidão, magia, sedução e verdade crua. Progressistas, patriotas e internacionalistas, são patrimônio das Américas e da humanidade. (*) É advogado.