Opinião
M�dicos e Judici�rio, parceria ou duelo?
| Marcos Davi Melo * Em Medicina apreendemos que as doenças agudas, como o apendicite, se devidamente tratadas, são curadas. As doenças crônicas, dificilmente. Mesmo se adequadamente tratadas, elas continuam minando silenciosamente o corpo, até incapacitá-lo ou exterminá-lo. As doenças crônicas têm uma característica cruel, ocasionalmente, emergem de sua letargia - e agudizam --, maltratam o hospedeiro, o espoliam e retornam às profundezas da deterioração. A crise na saúde pública nacional, especialmente em Alagoas, não é uma doença aguda. Esta é mais uma crise de agudização de um corpo, o Sistema Único de Saúde ( SUS ) que desde sempre sofre de uma doença crônica, a deficiência de recursos para seu financiamento, aliada a outras enfermidades, que sangram o seu já espoliado organismo: má gestão da coisa pública guiada por ideologia ou interesses políticos, pulverização de recursos com redundância de ações em uma área enquanto faltam em outras, ou simples e pura incompetência gerencial e de reconhecer a realidade que nos cerca. Dentro deste contexto de desprezo pela saúde da população usuária do SUS no País, os gestores públicos - não somente do setor saúde - têm persistido na mesma linha, impedindo que alternativas possam ser encontradas para atenuar o caos, desde que uma solução definitiva só viria tanto com o financiamento apropriado, como pelo uso criterioso destes recursos. Assim, uma liminar da Justiça mandou reabrir os ambulatórios 24 horas, que há anos vinham apresentando condições precaríssimas de trabalho, tanto para os pacientes quanto para os médicos e que o Cremal, com muito critério, após mais de cinco anos de acompanhamento, fiscalização e envio de incontáveis relatórios às autoridades pedindo soluções, sem ter nenhum retorno e sem alternativas outras, tinha fechado. A atitude do Cremal em uma história repleta de irresponsabilidades, foi uma centelha de compromisso, de responsabilidade, com a saúde da população. Este é um dos exemplos de que as instituições mais privilegiadas e sólidas, como o Judiciário ? historicamente alheio aos lamentáveis rumos que a saúde pública tem tomado no País ?, quando intervêm, o fazem de forma equivocada, preservando uma situação de aparente normalidade, mas totalmente indigna para médicos e pacientes. A situação seria bem melhor se o Judiciário tivesse, ao longo do tempo, usado as suas prerrogativas, o seu poder, para induzir as autoridades a cumprir com o seu dever com a saúde da população. (*) É médico e professor da Uncisal