Opinião
Vivemos o ef�mero que passa
| Dom Fernando Iório * Estamos passando de uma idade ingênua, irrefletida e anônima para aquele tempo de consciência refletida, pessoal, livre. Ontem, viviam as pessoas, de modo geral, tranqüila e moderadamente, seus dias na família, na aldeia ou nos estreitos círculos dos parentes e amigos. Eram as igrejas os edifícios centrais e nelas, ou derredor delas; nas suas praças encontravam-se os nossos antepassados. Hoje, relata-nos o Concílio Vaticano II, vivemos numa civilização demasiadamente comprometida com as realidades terrenas que ?pode, muitas vezes, dificultar o acesso a Deus? (Gaudium et Spes, 19b ). Entretanto, pessoa alguma pode negar - seja o ser humano vocacionado à comunhão eterna no amor de Deus. Basta dizer não ser Deus aquela espécie de arquiteto supremo que, após criar, tenha abandonado o ser humano à sua triste, amarga ou vitoriosa sorte. Ao contrário, não só lhe oferece o ser e o existir, senão também o mantém, a cada instante, dando-lhe o dom de agir e de o conduzir a seu termo. Por ser o Criador soberano e livre, causa primeira de tudo quanto existe, está presente no mais íntimo de suas criaturas: ?Nele vivemos, movemo-nos e existimos? - assevera o apóstolo Paulo. Ainda mais, confessa-nos Agostinho: ?Deus está por dentro do que há de mais profundo em mim; Ele penetra o íntimo de minha intimidade?. De fato, encontra-se Deus no recôndito da substância do ser humano. Ele não nos condiciona para nos amar: ?Eu te amo, se fores educado; eu te amo, se fores mais estudioso; eu te amo, se fores santo... Tudo porque os condicionamentos nos escravizam. A sociedade consumista recusa reconhecer o amor como experiência construtiva, vez que caminha para o desperdício: tem a pessoa de trocar, constantemente, de objeto. Sabemos que todo objeto trocado perde o valor. O amor de Deus, por ser infinito, não pode ser trocado, porque é, de todo, imutável. O mundo consumista lança em nossa mente a idéia de que tudo é relativo e, por isso, deve ser trocado. Bastas vezes, muda-se de família, como se troca de roupa ou de sapato. Eu, de mim mesmo, declaro e assevero, afirmo e testemunho, sem medo de me tornar ridículo, que as coisas mais importantes da vida são, justamente, aquelas que não mudam, que não passam: são as referências com as quais o ser humano caminha na vida e avalia o mundo. Com aquele menino me deparei: tomava sorvete, chorando, e, de logo, lhe perguntei - ?rapaz, você tomando sorvete, chorando? - É porque o sorvete está acabando?, respondeu-me ele. De fato, o efêmero passa e, passando, perde o seu valor. Só o que não passa guarda fidelidade e é na fidelidade que conserva o seu valor. (*) É bispo emérito e membro da Academia Alagoana de Letras.