Opinião
Amor de perdi��o
| Ronald Mendonça * Com as sessões da comissão de ética do Senado roubando a cena, quase passou despercebida a reabilitação póstuma do ex-capitão Carlos Lamarca. Já com generosas indenizações garantidas, a histórica e curiosa decisão da justiça reservou-lhe irônica promoção ao posto de coronel. Desertor assumido do exército na chamada era de chumbo da ditadura militar, quase de forma cinematográfica, Lamarca abandonou as dependências do seu quartel subtraindo armamentos e munições. O material robusteceria o aparato bélico de organizações que peitavam o regime. A finalidade derradeira era implantar uma outra ditadura, cujo modelo já estertorava na Europa, além de não ter fama de ser menos arbitrária e sangrenta. Tempos curiosos. Em transe pelo endeusamento de Che Guevara, içado implacável e terno demolidor de ditaduras de direita, jovens da classe média, num delírio coletivo, partiram obcecados para a luta armada. Os mais espertos, fingindo conspirar, embriagavam-se de esquerdismo escocês em bares temáticos. Para sociólogos e chutadores em geral, o clima seria propício para o surgimento de tipos messiânicos. Justiça se faça, Carlos Lamarca foi um sujeito audacioso. Quem, hoje em dia, ousaria invadir o paiol de um quartel do exército a não ser Fernandinho Beira-mar e Marcola? Pois ele o fez sozinho. Herói ou terrorista, dependendo do ângulo de visão, Lamarca foi um pouco isso tudo. Clandestino, passou a freqüentar os noticiários como líder de assaltos, seqüestros e assassinatos. Sem respaldo popular, essas bravatas não levavam a nada, evidenciando apenas fissuras da ditadura. Num dado momento, o desertor quase assumiria o papel de Robin Hood tupiniquim, enquanto desafiava e zombava da repressão. Na enxurrada de assaltos, não escaparam os milhões da residência de Dona Anna Benchimol, amante do ex-governador Ademar de Barros, conhecida nas rodas palacianas como ?doutor Rui?. Provando que até as pedras se encontram, em meio às miragens leninistas, uma burguesinha gauchiste marcaria a vida de Lamarca. Tratava-se da psicóloga Iara Iavelberg, descrita pelos biógrafos e admiradores como uma adorável e culta criatura desprovida de preconceitos, cuja pluralidade afetiva incluía incontáveis namorados, militantes ou não. Caçado com ferocidade, o próprio Lamarca denunciaria sua posição através de cartas pungentes que expunham a alma dilacerada por torturante ciúme. (*) É médico e professor da Ufal.