Opinião
Retorno � vida
| José Medeiros * Imagine-se como o personagem, Rip Van Winkle, de um conto americano do século 19, que sai de sua aldeia após uma briga com a esposa e, depois de uma bebedeira, adormece profundamente na sombra de uma árvore, para acordar 20 anos depois. Sua aldeia deixara de ser uma colônia inglesa para se tornar uma república, deixando o pobre marido fujão numa situação de confusão mental e choque cultural. Ou, ainda, pense no drama recentemente noticiado de um ferroviário polonês, Jan Grzebski, que entrou em coma em 1988 e passou 19 anos nesse estado, acordando apenas há algumas semanas. Ao acordar, Grzebski descobriu que a Polônia deixara de ser parte da União Soviética, e que o Muro de Berlim, além de derrubado, foi vendido em pedacinhos como lembrança para turistas. Continuemos com Jan Grzebski. Meses após o trágico acidente de que foi vítima, o coma parecia irreversível e os médicos deram-no por perdido; sem nenhuma esperança de recuperação. Sua esposa, entretanto, achava que a esperança é a última que morre: retirou-o do hospital e organizou um quarto em sua casa, que mais parecia uma pequena UTI. Dezenove anos se passaram desde o início do estado de coma. Seus quatro filhos se casaram e oito netos cresciam saudáveis e bonitos. Quando amigos aconselhavam-na a retirar os aparelhos para que o marido morresse em paz, respondia com convicção: ?Eu era esposa, agora sou mãe dele; e mãe não mata. Como se diz na Polônia: coração de mãe abriga 100 filhos?. Numa manhã, quando dele cuidava, ouviu uma voz que a fez estremecer, pois, mais parecia que vinha de um túmulo: ?Gertrudes, é você? Gertrudes, eu estou vivo?? A emoção dela foi tão grande que passou minutos paralisada; depois, gritou pelos filhos, e, abraçada ao marido, chorou copiosamente. Ela acreditou quando todos descriam; ela manteve a fé, mesmo quando a estrada parecia um longo túnel escuro. O Deus dos aflitos lhe acudiu. Para nós, ela se tornou um símbolo, uma heroína do cotidiano, mesmo sem homenagens e reconhecimentos públicos. Um episódio como esse vira lenda, e lenda se mistura à realidade. A realidade, muitas vezes, supera a ficção. Com um final feliz como foi o desse caso, pode-se brincar dizendo que a lagarta se fechou no casulo e virou borboleta, reaparecendo rica em cores, cujos voluteios a gente acompanha com os olhos da sensibilidade. (*) É médico e ex-secretário de Saúde.