Opinião
DNA do nosso racismo
| Ana Cláudia Laurindo * Há muito tempo, em terras brasileiras, desponta com mais ou menos força um conflito interno, ainda mal resolvido, denominado racismo velado. Já utilizamos tudo o que foi possível para negar oficialmente a diferença de tratamento e oportunidades para brancos e negros em nosso país, até mesmo a ciência já serviu de respaldo às afirmações fantásticas de que existe aqui um paraíso racial. Hoje, no despontar do século 21, ressuscitamos velhos argumentos, utilizados no século 19 pela então comunidade científica, afirmando a não-cientificidade da divisão racial em nosso país; com o acréscimo de termos agora desvendado os segredos do genoma humano e dispormos da possibilidade de classificar geneticamente através dos códigos do DNA. Ditos especialistas, quantificando nossos genes, podem afirmar nossa porcentagem de negritude ou branquitude, independente da cor que revista nossa pele! Sem esquecer de dar um toque de superioridade ao discurso quando reafirma nosso pedaço europeu como uma benção divina, apesar de ser pouco visível a olho nu quando a melanina é forte. Induzindo milhares de brasileiros a acreditarem que racistas são apenas os que ousam afirmar que há racismo em nosso país. Há algo, porém, que a ciência desenvolvida em laboratório não consegue alcançar, pois não pode sequer legitimar como existente: a subjetividade humana. É exatamente aí onde encontramos as marcas dos que portam e dos que suportam a força de uma cultura racista. Para esse estudo as Ciências Sociais têm respaldo e, associada a outros ramos das ditas Ciências Humanas, tem conseguido contribuir para a visibilidade da luta a dos movimentos sociais que militam em prol das grandes causas, em combate ao etnocentrismo e suas ramificações carregadas de prejuízos societários. Quando os paradigmas da elite são questionados, as reações chegam de muitos lados, e de um único centro: o mito da democracia racial, utilizado pelo grupo dominante para tornar desacreditado o apelo dos grupos historicamente subjugados, e que hoje atuam para reverter esse perfil. Aqueles que insistem em comparar as discussões e conquistas adquiridas pela raça negra no Brasil com os feitos nazistas, denunciam a má-fé utilizada no próprio discurso; conhecedores que são das motivações de superioridade racial dos que pregavam a eugenia na Alemanha, o que não querem é admitir as motivações de busca da igualdade, dos que aqui militam por um país que se abra verdadeiramente a todos os seus filhos. (*) É cientista social.