Opinião
Hist�rias para boi dormir
| Ronald Mendonça * Em tempos de histórias para boi dormir, se, pelas artes de Merlin, um dia estivesse destinado a ocupar um cargo público de destaque e, se por razões presumíveis, caísse nas graças de algum poderoso, sendo por isso alvo de mimos diversos que centuplicassem o modesto patrimônio pessoal, investimento em bois seria a última coisa a pensar. Nadando contra a maré e a moral vigente, bois não fazem parte dos meus objetos de desejo. Assim não deveria ser, pois vivi a infância admirando vacas e bois. É que nas ruas da minha memória costumavam circular grupos de mansas criaturas peitudas, cujos profundos olhares tristonhos atiçavam ainda mais a curiosidade. Era o gado leiteiro de seu Graça e o do seu Zeca Ferrari, este, velho cacique político de Bebedouro. Se não bastasse, como nas narrativas de Sheradaze, muitas foram as noites em que nos reuníamos em torno do pai para ouvir histórias da sua meninice nos engenhos Brejo e Grujaú, do Pilar de suas lembranças, povoadas de bezerros e burregas, cavalos ensinados, leite do peito, cana-de-açúcar, mel de engenho, generosos pomares, efêmeras glórias familiares, dificuldades, decepções e saudades. E mais uma miríade de informações e comentários que nos transportavam àquele distante universo de enlevo e nostalgia. Já em idade escolar, fomos envolvidos pelas aventuras de outro José, o do Egito. Vendido como escravo, o intuitivo José cairia em desgraça vítima da teia de intrigas de uma pérfida criatura, que entraria na história como ?a mulher de Putifá?. Dos calabouços, José seria catapultado à condição de ministro, depois de decifrar enigmáticos sonhos faraônicos sobre vacas gordas e vacas magras. A épica e tumultuada fuga dos hebreus em busca da terra prometida teve seu clímax quando Moisés recebeu as ?Tábuas da Lei?, decálogo supostamente escrito pela mão divina. Descendo das montanhas, Moisés quebraria as sagradas madeiras ao constatar que, na sua ausência, seu próprio irmão cunhara um bezerro de ouro para adoração. Volto ao meu pai. Outonal, viu-se à frente de uma pequena propriedade, arriscando-se em sinuosas e esburacadas estradas para conferir umas poucas reses. Fraco negociante de gado, diletante, afeiçoou-se a um velho boi de chifres monumentais, cujas 23 arrobas despertavam ambição. Até o fim da vida, meu pai manteve-se firme, resistindo às inúmeras propostas de enviar o animal dos seus afetos à impessoal frieza dos frigoríficos. (*) É médico e professor da Ufal.