Opinião
A hist�ria se repete
| Elaine Pimentel * Assistimos estarrecidos a mais um episódio de violência urbana praticada por jovens de classe média do Rio de Janeiro: a doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto foi espancada por quatro rapazes, enquanto esperava seu ônibus numa parada, depois de mais um dia de trabalho. Presos, os agressores afirmaram que não sabiam que se tratava de uma empregada doméstica: pensavam que era uma prostituta. Talvez em virtude desse ?equívoco?, sentiram-se no direito de agredi-la, marcando de forma indelével sua vida. Esse lamentável incidente nos faz lembrar do que ocorreu com o índio Pataxó, Galdino Jesus dos Santos, em Brasília, há dez anos. Um grupo de jovens, filhos da classe média brasiliense, ateou fogo a um homem que dormia num ponto de ônibus, julgando tratar-se de um ?mendigo?. Se soubessem que se tratava de um índio, afirmaram, certamente não teriam feito aquela ?brincadeira?. O fato é que a brincadeira culminou com a morte de Galdino, que teve 95% de seu corpo queimado. Os dois episódios de brutalidade têm algo em comum: o total desrespeito ao ser humano. Ora, Sirlei é empregada doméstica, mas mesmo que fosse prostituta, isso não retiraria dela a condição de ser humano, detentora de dignidade e de respeito. Galdino, por sua vez, era índio, mas se fosse mendigo, continuaria a ser sujeito de direitos. E, diga-se de passagem, ser mendigo num país como o Brasil, nos dias de hoje, não é opção de vida. É justamente a falta de oportunidades que leva os sujeitos à mendicância. O que levaria, então, esses jovens agressores, moradores de bairros nobres de grandes centros urbanos, a pensar que determinada condição social justificaria atos de barbárie contra pessoas que povoam os pontos de ônibus Brasil afora, todos os dias? Certamente não existe uma resposta plausível para essa pergunta. Mas posso arriscar um palpite. Vivemos em um país dotado de uma justiça criminal seletiva. Enquanto, por um lado, os crimes de colarinho branco tornam-se parte do nosso cotidiano, com chuvas de habeas corpus concedidos e tolerados pela sociedade, por outro lado assistimos a presídios lotados de pessoas pobres, com assistência jurídica de qualidade duvidosa. E o tratamento a ser dado aos agressores de Sirlei e Galdino? Estará mais próximo daquele concedido aos criminosos de colarinho branco ou aos presos pobres que compõem a grande massa da população carcerária do Brasil? Bem, quanto a isso, tenho um outro palpite, mas prefiro deixar nas entrelinhas. (*) É professora universitária.