Opinião
Saudades do Brasil
| Anilda Leão * Sempre presente aos meios artísticos desde os anos 70, quando com Moliterno comandava o DAC ? Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria de Educação do Estado ?, era procurada pelos jovens artistas de todas as modalidades em busca de incentivo para as suas produções. Com eles, gostava de confabular sobre assuntos diversos, principalmente sobre arte e política, tentando desvendar se no peito daqueles jovens ainda sobreviviam o patriotismo e o amor ao nosso País. Eram dias difíceis, a censura imperava e muitas pessoas ainda morriam sob tortura nos desvãos da ditadura que agonizava. Gostava de relembrar meus dias de escola primária, quando antes do início das atividades diárias, ficávamos formados em frente ao mastro da bandeira e cantávamos, com a mão sobre o lado esquerdo do peito, o nosso belo hino. E ouvíamos, na véspera dos dias mais importantes, discursos sobre as figuras ilustres que marcaram a nossa história pátria. E, logo após uma pequena pausa, éramos levados a meditar sobre as palavras sagradas e sobre a obra de Deus. Só então estávamos preparados para o início das aulas propriamente ditas. Evidentemente, o que constatei nos meados da década dos 70 foi que a juventude de então já andava bastante desesperançada a respeito do futuro do nosso País, o que não era de se estranhar, afinal ainda vivíamos sob o regime militar. Mas tinham todos muita garra, muita vontade de fazer alguma coisa que pudesse fazer a diferença, principalmente o pessoal do teatro, a que até hoje continuo ligada. Com a redemocratização e a Constituinte, muitas foram as nossas expectativas de que, enfim, o País entrasse nos eixos. Mas não foi o que ocorreu, e o que observo atualmente não é somente a falta de esperança no futuro, é a total decepção dos nossos jovens com o sistema político. Decepção essa que é generalizada, não se restringindo apenas aos jovens, é claro. De tanto testemunharem os descalabros, os roubos, os escândalos, as trapaças e outras atitudes espúrias dos nossos homens públicos, muitos dos quais chegando a manchar as próprias biografias após galgarem o poder e embriagar-se com as mordomias e privilégios dos cargos que ocupam, que esperança no futuro do Brasil pode ter o jovem de hoje? (*) É escritora.