Opinião
Reconhecer o outro como seu semelhante
| José Medeiros * Situações como a do espancamento de uma doméstica por jovens universitários de classe média, no Rio de Janeiro, convidam-nos a questionar que sociedade estamos construindo. Por maiores que sejam as explicações, nada justifica essa desmedida agressão. Uma pergunta vem à tona: o que aconteceu com a dignidade e os valores cristãos que tanto precisamos para viver em sociedade? Em geral, fazemos uma leitura simplista de que o problema da violência urbana está somente nas classes pobres, vítimas da exclusão social. Agora, ficamos sem respostas quando os agressores são ?cidadãos? de classe média e estudantes universitários. Tal constatação mostra o lado sombrio de uma sociedade em crise de valores, principalmente, na educação dos filhos. Agressões, assaltos a postos de combustível e mercadinhos são praticados por jovens supostamente de melhor educação, por quê? Entre as muitas explicações que vêm sendo dadas, ressalto a de uma psicanalista estudiosa dos problemas de família: ?Os pais, como todos os adultos, são co-responsáveis pelas violências perpetradas por jovens, que ocorrem cada vez com maior freqüência?. E acrescenta: ?Quando superpreservamos crianças e jovens ? durante sua formação ? de todo medo, de toda frustração, de qualquer fracasso, humilhação ou vergonha, estamos impedindo que aprendam o quanto dói neles um acontecimento como esse. Como as novas gerações de classe média estão sendo preservadas da maioria dos desconfortos naturais da vida, é de se presumir que não tenham uma avaliação concreta das dores de seus semelhantes?. Ao pensar nisso, recordei-me de uma reflexão que faz uma analogia entre o jogo de futebol e a educação dos filhos. Analisa diversas possibilidades de placares, das quais exponho algumas simulações. Os pais que conseguem um resultado de 9 x 1 (pais 9 x filho 1), são ditadores, não permitem que seus filhos marquem ponto e cresçam com uma autonomia salutar. Os pais ?moderninhos? que investem em um placar de 5 x 5 determinam uma igualdade desarmonizadora, que nem sempre dá bons resultados. Quando o placar é de 4 x 6 ( pais 4 x filho 6), significa que os pais perdem a liderança, e, o que vem a seguir, está por conta da sorte. Numa última hipótese, os pais que perdem por 9 x 1, deixam o mal entrar em suas casas e o filho está fadado a sofrer e causar sofrimentos; um desastre na educação familiar. E você, já calculou o resultado da partida em sua casa? (*) É médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.