Opinião
A democracia cultural
| Benedito Ramos * A crítica à cultura de massa, desempenhada por Adorno e Horkheimer, pensadores frankfurtianos do século 20, fere profundamente as raízes de uma falsa democracia cultural que abrange horizontalmente todas as camadas da sociedade. Coisa que na realidade é um exemplo de alienação coletiva. Haja vista, que o engajamento desta sociedade, nesta cultura de massa é feito de forma vertical, do topo da pirâmide, retornando a este mesmo topo, a uma minoria em forma de riqueza material. Um arranjo que o mundo capitalista faz para duplicar o produto cultural transformando-o em larga escala para atender à demanda. ?A luta contra a cultura de massa só pode ser levada adiante se mostrada a conexão entre a cultura massificada e a persistência da injustiça social?. Claro que isto tem sentido, a medida em que constatamos que a exclusão cultural atinge, principalmente aqueles que são privados de conhecer a música clássica, a ópera, o teatro e os filmes de arte. Principalmente, porque esta horizontalidade cultural atinge estes excluídos e não o topo da pirâmide, que pode pagar para assistir bons espetáculos. Em Maceió o projeto Concerto aos Domingos, realizado pelo Instituto Histórico, coordenado pela pianista Selma Brito, acabou por falta de 4 mil reais por mês. Finalmente, aquilo que os frankfurtianos chamam de barbárie, onde a arte é o melhor antídoto. Para estes pensadores o conceito de arte consegue sobrepujar-se incólume aos desmandos da cultura de massa. Eis a disformidade da arte em benefício de uma leitura facilitada, sem possibilidade de nenhuma reflexão. Uma espécie de democracia cultural na voz dos que promovem a cultura de massa. É exatamente isto que vemos, notadamente, no Brasil, onde a política cultural distribui esta réstia de cultura, que preenche o espírito das massas periféricas em forma de axé music, bandas de forró e folclore estilizados, feito para turista ver. Tudo isto, embalado pela mobilidade de uma sociedade de excluídos, que são contemplados com empregos temporários, suficientes para decorar a contabilidade dos noticiários nacionais em prol do desenvolvimento. Ao fim desta ópera bufa, não resta mais que as ruas malcheirosas e apinhadas de lixo para dar emprego a mesma leva de miseráveis que também aplaudiu na noite anterior. Para os frankfurtianos, ao contrário ?a cultura é a quintessência dos direitos humanos. Em um mundo antiintelectual, antiteórico e inimigo do pensamento autônomo, a razão ocupa lugar central?. (*) É escritor e historiador ([email protected]).