Opinião
O grande Roriz
| Ronald Mendonça * Um dia a história vai fazer justiça e colocará o cidadão Joaquim Roriz no seu devido lugar. De fato, vítima da excessiva rigidez moral de seus colegas senadores, o simpático grisalhão de indefectível sorriso colgate (mistura do ex-ministro dos transportes do regime militar Mário Andreazza e do também falecido ator americano Cary Grant) lega para as atuais e futuras gerações de políticos brasileiros exemplos dignificantes. É que de uns anos para cá ? na verdade desde que o presidente Lula inventou a eletrônica e o grampo telefônico ?, vários homens de bem desse País têm sido surpreendidos em singelos diálogos que a maldade humana vem interpretando como criminosos. Até o doce, ingênuo e inofensivo Vavá, irmão do nosso Lula, pego trocando figurinhas com compadres contraventores, sofreu imerecidas acusações. Evidentemente que a escuta telefônica está com seus dias contados. Hoje, com a banalização do método, as conversas por telefone se restringem a trocas de receitas de bolo e prosaicas vendas de gado. Voltemos à vestal figura Joaquim Roriz, honra e glória do nosso Legislativo. Não é por acaso sua semelhança com o famoso Grant. Tenho certeza de que se um dia a Rede Globo precisar de um substituto à altura do galã Tarcísio Meira, a escolha recairá sobre o talentoso Roriz. Com efeito, da honrada tribuna do Senado Federal, tentando explicar emblemático telefonema que envolvia o esquartejamento de misterioso cheque, nosso herói se superou. Poucas vezes um senador da República produziu peça mais convincente. Quem se incomoda com a inverosimilhança do discurso, se a voz embargada pela emoção (aliada às sinceras lágrimas) já seria suficiente para inocentá-lo? Que coisa linda aquele momento de fé, quando o parlamentar em humilde genuflexão entregava-se ao Criador! Pelo menos dois episódios consagram definitivamente o caráter do experiente político. Começando pelo epílogo: a contundente carta-renúncia lida em plenário pelo senador piauiense Mão Santa, outro grande quadro político. Neste doloroso documento, Roriz quase se oferece em sacrifício ao povo brasileiro. Temi o suicídio. Registro, no fim destes comentários, a extensão da grandeza de Joaquim Roriz: abocanhando um cheque de dois milhões e duzentos mil reais, o nobre senador, revelando desprendimento e espírito republicano, abriu mão do montante principal contentando-se com míseros 15% do bolo. O senador fará falta. (*) É médico e professor da Ufal.