Opinião
Anjos e dem�nios de Swedenborg
| Marcos Davi Melo * Jorge Luis Borges é considerado o mais completo escritor latino-americano de todos os tempos. Embora títulos como O Aleph, História Universal da Infâmia e Informe de Brodie estejam catalogados entre as suas principais obras, nenhuma se compara ao Livro dos Seres Imaginários, onde Borges cita o eminente homem de ciência e filósofo Emanuel Swedenborg (1688-1722), que desenvolveu a maior parte de sua criativa obra em Londres, onde fixou residência nos últimos vinte e cinco anos de vida. Como os ingleses são taciturnos, Swedenborg caiu no hábito cotidiano de conversar com anjos e demônios. Generoso, o Senhor permitiu-lhe visitar as regiões ultraterrestres e falar com seus habitantes. Cristo havia dito que as almas, para entrar no céu, devem ser justas; Swedenborg acrescentou que devem ser inteligentes e éticas; seus anjos são as almas que escolheram o céu. Podem prescindir de palavras; basta que um anjo pense em outro para tê-lo junto a si. Duas pessoas que se tenham amado na terra formam um só anjo. Seu mundo é regido pelo amor; cada anjo é um céu. Seu maior deleite são a prece e a discussão de problemas espirituais. Os anjos de origem inglesa mostram tendência para a política; os judeus, para o comércio de jóias; os alemães carregam livros, que consultam antes de dar respostas. Como os muçulmanos estão acostumados à veneração de Maomé, Deus lhes concedeu um anjo que simula ser o Profeta. Os pobres de espírito, os vaidosos, os egoístas e os ascetas estão excluídos dos gozos do paraíso porque não os compreenderiam. Já os demônios de Swedenborg não constituem uma espécie, procedem do gênero humano. São indivíduos que depois da morte, escolhem o inferno. Não são felizes nesta região de pântanos, de desertos, de selvas, de aldeias arrasadas pelo fogo, de lupanares e de escuros covis, mas no céu seriam mais desgraçados. Vivem no ódio recíproco e na violência; quando se juntam fazem-no para destruir-se ou mais ainda para destruir alguém. Os infernos mais sórdidos e atrozes estão no oeste. Borges em sua obra faz uma clara separação entre anjos e demônios. É uma pena que esta distinção exista apenas no Livro dos Seres Imaginários. Embora os diabos estejam em toda a parte, ele localizou no Oeste a concentração dos piores infernos, só não vislumbrou que ali, da boca pra fora e sob os holofotes, todos são anjos, mas basta um suplente assumir, outro ter indicação para uma relatoria do Conselho de Ética para se ver que no fundo, os anjos e os demônios são muito parecidos. (*) É médico e professor da Uncisal.