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O rei do canga�o

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| Lysette Lyra * Quando menina morei no Ceará. Ouvia os adultos comentarem as façanhas de Virgolino Ferreira da Silva, cognominado o Lampião, o poderoso cangaceiro que assustava o Sertão nordestino com seus crimes hediondos. Numa época em que os coronéis, fazendeiros dominadores, que viviam em constantes conflitos pela posse de terras ou rivalidades políticas, se cercavam por verdadeiros exércitos de jagunços e cabras, necessários para a defesa de seus interesses. Travavam verdadeiras guerras e alimentavam o banditismo. Numa zona castigada pelo flagelo da seca que agravava as desigualdades sociais, a miséria e a violência fomentaram o surgimento de bandos armados, fora do controle dos donos de terras, na luta pela sobrevivência. Porém o cangaço só tomou maior importância com o surgimento da figura de Virgolino, nascido no sítio Passagem das Pedras, hoje Serra Talhada, em 1897. Seus pais, José Ferreira e Maria da Purificação, foram executados. Lampião jurou vingar suas mortes até o fim de seus dias. Formou uma temida quadrilha que apavorou o sertão durante três décadas. Usava no pescoço lenços coloridos presos por um valioso anel de doutor em Direito. Era corpulento, de estatura mediana e cego de um olho. Bandido sanguinário torturava, matava, seqüestrava, violava as mulheres, mutilava as pessoas. Entrava nas cidades, cantando e pedindo dinheiro, comida e apoio. Quando lhe negavam, seu canto se transformava em réquiens fúnebres. Moças, que usavam vestidos e cabelos curtos, eram marcadas com ferro em brasa. Em 1930 se juntou à Maria de Oliveira, chamada Maria Bonita, por quem se apaixonara, e que seguiu participando do bando. Tiveram uma filha que foi criada por coiteiros. Muitos coronéis protegiam Lampião em troca de seus serviços e para dele se protegerem. Finalmente em 1938, numa emboscada, quando se recolhera no seu refúgio da Gruta do Angico, em Sergipe, uma volante organizada por João Bezerra e Ancieto Rodrigues, oficiais da polícia alagoana, foi morto com mais 10 comparsas, sendo suas cabeças decepadas como prova. Hoje Lampião, que escreveu uma das mais cruéis páginas criminais da história do Nordeste, virou herói. Homenageiam-no como uma emblemática figura. A neta e remanescentes de seu bando aparecem na TV, exaltando o cangaceiro como glorioso vulto histórico. Numa época em que o banditismo urbano apavora nossas cidades, acho descabida essa glorificação de um bandido que tanto infelicitou a gente do Sertão. (*) É escritora.

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