Opinião
V Confer�ncia do Episcopado Latino-Americano
| Dom Fernando Iório * A dureza, por demais propalada pela mídia, de que estaria repleto o discurso de Bento XVI, na abertura da V Conferência do Celam, em Aparecida, transformou-se numa palavra profética e, talvez, dura, de fato, para quantos não gostam de ouvir a verdade. Sentimos, com efeito, ausência dos ?clichês? libertários, com o quais, nós, da geração pós-Puebla, nos formamos. Ressentimo-nos, também, de certa dialética, da ausência de expressões com transfundo sociopolítico-econômico. A linguagem do papa, na abertura da V Conferência, é religiosa, voltada, entretanto, para as instruções do Concílio Vaticano II, das Conferências de Medellín, Puebla e Santo Domingo. Não propôs o romano pontífice um retorno a interesses internos, de todo, eclesiásticos. Seu discurso, eivado de esperança, lança a Igreja, cada vez mais, para fora de si mesma, quando afirma: ?Com o mesmo espírito que os animou, querem os pastores dar, agora, um novo impulso à evangelização, a fim de que esses povos continuem crescendo e amadurecendo em sua fé, no sentido de que sejam luz do mundo e testemunhas de Jesus Cristo com a própria vida?. Lamenta Bento XVI que, por se tratar de um continente de batizados, ?exista na América Latina e no Caribe aquela ?notável? ausência, no âmbito político, comunicativo e universitário, de vozes e iniciativas de líderes católicos de forte personalidade e de vocação abnegada?. Garante-nos, entretanto, Bento XVI que o Cristianismo se mostra na prática, no testemunho da vida de cada um, com base no primado da Palavra de Deus. Pastoralmente, encontramos, no discurso papal abertura à inserção e transformação da realidade. Não obstante, deixa claro que a Igreja não é ?sujeito político?, ?advogada da justiça e dos pobres?. Ela não se identifica com os políticos, nem com os interesses partidários. Pobre Igreja, assevera Papa, que se, se misturasse aos jogos e manobras políticas, ?não faria pelos pobres e pela justiça; ao contrário, menos faria, por que perderia sua independência e sua autoridade moral, vez que se identificaria com posições parciais questionáveis?. O papel da Igreja é mais amplo, porque radicado no evangelho de Cristo, fonte inesgotável de libertação e justiça para todos. O discurso revela um pastor preocupado com seu rebanho no continente Latino-americano e no Caribe, mostrando que Deus não é só pensado ou hipotético, senão um Deus de rosto humano, um Deus conosco. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.