Opinião
Cr�nica de uma morte anunciada
José Medeiros * No rol dos tripulantes do barco de minha infância e de minha adolescência, eu incluiria um ente inorgânico, mas que para mim tem coração, vida, importância e presença: o Rio São Francisco. Por ele tenho um profundo sentimento de amizade e reconhecimento: nele aprendi a nadar, remar e velejar. Nele, nos arroubos da adolescência, desafiei, irresponsavelmente, tempestades e águas turbulentas. O rio tornou-se parte importante de minha vida. Na década de 40, o transporte fluvial na região sanfranciscana era a única alternativa para os ribeirinhos da cidade de Traipu. Era o caminho natural, pois não havia estradas trafegáveis que ligassem a cidade à Maceió. O rio comandava a vida, era a nossa rua, uma rua sem nome, que nos levava à nossas casas e cidades vizinhas. Para estudos secundários, tratamentos de saúde e boas compras, viajávamos de canoa à cidade de Penedo, a quem, carinhosamente, chamávamos de ?princesa do São Francisco?. Talvez esse amor tão entranhado que eu tenho pelo Rio São Francisco, explique minha revolta contra essa transposição que se inicia. Acompanhei as prolongadas e repetidas discussões sobre esse assunto. Temo pela sua semi-extinção. Na época em que eu morava em sua margem, o rio era um mar de água doce, largo, a perder de vista. Vieram as hidrelétricas, suas águas foram represadas, construídos os lagos artificiais de Xingó, Itaparica e Sobradinho; e o rio minguou consideravelmente. Assoreamentos e desmatamentos fizeram o resto. Revitalização? Zero. Uma pergunta vem de muitas bocas: o que restará do rio depois da transposição? Conta a história que a experiência do desvio de águas do Rio Arno, na Itália do século 16, encabeçada por Nicolau Machiavel e Leonardo da Vinci foi um fiasco, resultando em perda de trabalho humano e exagerado dispêndio financeiro. No Brasil, o cenário é ainda mais complexo, pois, nesse passado, tentava-se apenas aliar engenharia e arte. O título deste artigo merece uma explicação. Tomei-o, por empréstimo, ao livro Crônica de uma morte anunciada, do escritor Gabriel Garcia Márquez. Uma semelhança sutil: no livro, a personagem Santiago Nasar sabia que ia morrer. Havia sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras, para ele presságio de acontecimentos ruins. Avisos de amigos não lhe faltaram. Entretanto, forças superiores, mãos invisíveis de ferro, conduziram-no a seu destino fatal. Espero que São Francisco, santo dos pobres, dos animais e das aves, que deu nome ao rio, zele pelo seu destino. (*) É médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.