Opinião
O galo de Barcelos
| Jorge Maurício G. Brêda * Quem sabe não são meus laços lusitanos, como neto de português, que me levam, quando em vez, a trazer histórias e lendas da terra de Camões. Barcelos é uma cidade situada na região Norte de Portugal, entre os rios Douro e Minho, também conhecida como Região dos Vinhos Verdes ou Minho. Fica entre a atlântica Viana do Castelo e Braga, gastronomicamente citada pelo seu ?arroz de Braga?. Sua situação ensejava a passagem quase obrigatória de mercadores e principalmente de peregrinos, com destino à Santiago de Compostela, na Espanha. Conta a lenda, que os habitantes de Barcelos andavam preocupados com um crime, que fora cometido por pessoa até então não identificada. Certo dia, apareceu um desses andantes que logo se tornou suspeito de tal, pois não se acreditava que o pobre coitado ia para Compostela, como devoto fervoroso de São Tiago, de São Paulo e de Nossa Senhora. Após prendê-lo, julgaram-no e condenaram-no à forca. Por mais súplicas que fizesse, ninguém o ouvia. Resolveu então pedir, antes de ser enforcado, que fosse levado à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização, foi o mesmo encaminhado à residência do magistrado, que naquele momento se banqueteava com familiares e amigos. Após reafirmar sua inocência, sem que lhe fosse dado crédito, apontou para um galo assado sobre a farta mesa, dizendo: ?É tão certo eu ser inocente, como é certo este galo cantar quando me enforcarem?. Todos riram e comentaram a ameaça, mas não se atreveram a tocar no galináceo. Pois não é que, na hora em que estava sendo executado, o galo levantou-se e, para espanto de todos, cantou. Assustado o juiz correu para o local da forca e para seu espanto o homem estava dependurado mas com vida, já que um nó na corda impediu seu estrangulamento. No mesmo instante, deram liberdade ao caminhante que, após sua peregrinação, voltou à Barcelos para erguer o monumento em louvor à Virgem e a Santiago. Esta lenda fez com que o Galo de Barcelos se transformasse em símbolo de Portugal, sempre presente nas festas tradicionais, nas casas portuguesas em cerâmica ou renda e pelo mundo afora como souvenir. Cá entre nós, aquém mares, quiçá, em nossas churrascarias, os bois não cheguem a mugir e um ?nó? no conselho de sentença não nos venham mostrar que tudo não passa de conversa prá boi dormir. (*) É bacharel em Economia e consultor imobiliário.