Opinião
O sonho de Julinho
| Ronald Mendonça * Júlio Braga Monteiro é um velho amigo do Colégio Diocesano que deixou a província para acompanhar o pai, funcionário de carreira do Banco do Brasil. Inteligente, e sensível, em plagas distantes Julinho transformou-se num severo magistrado. De vez em quando, a grande imprensa burguesa destaca sua intransigência contra os criminosos, desde os de colarinho branco até os traficantes pés-de-chinelo. Com altura acima da média, era um goleiro prestigiado pela coragem e dedicação. Quando o titular foi expulso do colégio por apreensão indevida na cantina do Irmão Silvino, Braguinha (como também era conhecido) por um triz não ocupou a disputada posição de guarda-valas da temida seleção do Diocesano. Internauta ciclotímico, alterna períodos de silêncio absoluto com fases de compulsiva produção, sobrecarregando a caixa eletrônica dos seus ex-colegas, particularmente a minha e a do Chico Américo. Difusor voluntário da região que adotou para habitar, nos últimos tempos meu amigo tem demonstrado desânimo. Seus relatos são dramáticos. Encravada no Brasil central, rica em recursos naturais, em tempos não muito distantes, a área geográfica já foi considerada o ?filé do Centro-oeste?, época de inequívoca prosperidade. A longa estiagem moral provocou um empobrecimento geral da população ao mesmo tempo em que grupos, sob o olhar complacente de governantes, assaltavam os cofres públicos. Num piscar de olhos, meros funcionários públicos, içados à condição de secretários, tornaram-se ricos e posudos. Tudo respira corrupção. De precatórios às verbas destinadas à Saúde e à Educação, servindo, dentre outras coisas, para financiar campanhas eleitorais, fato que garante a eternização da safadeza. Numa das últimas correspondências, Julinho mostrou-se particularmente indignado. Segundo suas palavras, se Chico Américo e eu lá morássemos, estaríamos com a cuia na porta das igrejas. É que o salário dos médicos há pelo menos doze anos não sofre qualquer reajuste, enquanto o dos deputados chega a incrível marca de 120 mil reais por mês. Num assombro de imoralidade, enquanto nega-se uma remuneração decente aos médicos, o governo finge que não sabe que importante cargo público está sendo leiloado a peso de ouro, como se fosse propriedade privada. É por isso que a saudade de Maceió tem sido tão pungente. Hoje, o sonho de Julinho é voltar a morar na Avenida da Paz e trocar figurinhas com o Carlito Lima sob a proteção da Ponte do Salgadinho. (*) É médico e professor da Ufal.