Opinião
O avi�o invi�vel
| Marcos Davi Melo * A primeira vez em que viajei de avião foi para São Paulo. Era criança e fui com meu pai visitar uns tios, seus irmãos emigrados de Paulo Jacinto para trabalhar na paulicéia. Fomos pegar o aeroplano em Recife. Saímos na madrugada. Pousamos em Aracaju, depois Vitória da Conquista. Daí em diante o vôo foi envolvido por intenso temporal e o pequeno avião passou a chacoalhar de tal forma que quando pousou em Diamantina, sob frio enregelante, a maioria dos passageiros tinha vomitado tudo o que tinha e não tinha no estômago. O ronceiro avião só chegou ao Rio tarde da noite, onde pernoitamos e só no dia seguinte, já em outro avião, seguimos para São Paulo. Anos depois, fiz várias viagens para Manaus. Saindo sempre de Recife, pois Maceió ainda quase inexistia como sede de vôos. Era o tempo em que em todos os aeroportos, a tripulação e os passageiros deixavam o vagaroso avião, iam até o saguão, lanchavam, tomavam uma cerveja. A jornada era longa, se saia antes do sol nascer e só se chegava à noite, mas existia a convicção que a coisa tardava, mas chegava. Durante este tempo, acoplado em modelos muito rústicos, como o Avro, o Hirondelle e o DC3, todos superados turboélices, hoje, considerados tão primitivos quanto os pré-históricos pterodátilos, desci em aeroportos tremendamente rudimentares; quando da participação no Projeto Rondom, desci em um que apenas os audazes pilotos da FAB conseguiam, Jacareacanga, uma minúscula clareira perdida no meio da selva amazônica. O maior desgosto que passei, foi uma vez em que levei no bagageiro um saco de pitus cozidos para um tio meu em Manaus, cochilei e a tripulação o localizou, fez a festa no demorado vôo e o devorou; só chegando ao destino o saco vazio, para grande frustração de meu tio que adorava camarão. Esta tragédia da TAM em Congonhas, com mais de 200 mortos; 10 meses depois da do GOL, com mais de 150 óbitos, associados ao caos, que torna qualquer viagem aérea hoje uma injustificada aventura de alto risco; caracteriza um paradoxo: as aeronaves atuais e os sistemas de controle de vôo, em relação aos de 30 anos atrás, são equipamentos extremamente modernos e infinitamente mais avançados, não se justifica que naquela época, com equipamentos toscos e rudimentares, se voava com muito mais tranqüilidade e segurança que hoje no Brasil. O governo federal não é culpado por eventuais falhas de equipamentos ou humanas, mas tem absoluta (ir)responsabilidade nesta situação vergonhosa, nesta desastrada involução que é o sistema aéreo brasileiro atual. (*) É médico e professor da Uncisal.