Opinião
O sil�ncio constr�i
| Dom Fernando Iório * No amor há mais silêncio que palavras. Toda pessoa tem necessidade de silêncio para captar as ondas que emanam do ser amado e falam mais ao coração sintonizado. Momentos há em que existe uma coisa mais eloqüente que a eloqüência: o silêncio. É no silêncio que a seiva bruta se torna elaborada. É, no silêncio, que a árvore germina e frutifica. É, no silêncio, que trabalham os órgãos do corpo humano, a maior usina da sabedoria divina. É, no silêncio, que o universo se movimenta no ritmo das horas. O importante é que não tenhamos medo do silêncio do infinito, quando esse infinito é o amor que se apodera de nós na pauta de uma sinfonia. Afinal de contas, o que é a música senão o silêncio que se torna sonoro? E ficamos sabendo que só entendemos melhor o silêncio quando se esvanece o último som do acorde que não ouvimos. Beethoven, embora surdo, ouvia os acordes que não escutava. Diga-se, em alto e bom som, que o silêncio carrega riqueza de conteúdo, capaz de parar para poder falar. Assim foi o comportamento de Enéas diante da rainha que lhe pedia uma narrativa das tragédias da viagem. Virgílio revela ter o herói silenciado e, logo após, falado: ?Infandum, Regina, jubes renovarem dolorem?. Ele vai narrar fatos terríveis que vivem no silêncio de uma dor. Reflitamos no silêncio de Jesus diante de Pilatos, de Herodes, no alto da cruz. São silêncios de riqueza incomensurável. O silêncio exige, vezes muitas, nova capacidade de ouvir. João Paulo II, dias antes de deixar o nosso convívio, debruça-se sobre o parapeito da janela de seus aposentos, de onde costumava falar ao público e, em silêncio, contempla o rebanho, ávido de sua palavra, e nada fala. Aquele silêncio, de uns cinco minutos, falou mais do que inúmeros de seus sermões, homilias e discursos. Greta Garbo, a maior atriz do cinema falado, dizia: ?Eu me espanto diante daqueles silêncios que expressam amor?. O silêncio é capaz de criar, de construir novas capacidades de ouvir. Vivemos momentos de ruídos, de sonhos estrepitosos. Trata-se de uma ocasião para se refletir sobre o mistério do silêncio. É lógico que conhecemos a extensão do silêncio e seus limites. De acordo com a nossa psiquê somos capazes de silêncios extensos, bem assim, de silêncios menores. Silêncios há que unem, outros tantos que dividem. Uns que angustiam, outros que nos elevam até a transcendência mais fecunda. O silêncio é um mistério. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.