Opinião
Voc� e os outros
| Marcos Davi Melo * Entre tantos, dois problemas graves atormentam o País e vão ter tratamentos diferentes, o que não garantirá que terão resultados também diferentes. Um é a segurança pública, cuja situação a cada dia mais crítica faz com que o poder público se mobilize de alguma forma e proponha algumas soluções para atenuá-lo. A razão principal desta mobilização não é outra: a insegurança causada pela violência ameaça a todos: participantes dos poderes públicos, abastados, classe média e os formadores de opinião. Já a questão do caos na saúde pública ? cujos médicos do serviço público estadual, como os de Pernambuco, estão em greve há quase dois meses e começam a se demitir coletiva e dolorosamente ? embora seja uma mazela nacional tão grave quanto à segurança pública, não consegue sensibilizar o governo federal. A razão: o sufoco do SUS só sacrifica a classe mais desfavorecida. Os ameaçados pela insegurança pública, nesta questão, estão salvos: têm um convênio privado; não sofrem na pele a ameaça de estar doente e depender só do SUS para salvar a sua vida ou a de seus parentes próximos. Neste posicionamento extremado e desesperado que levou médicos à demissão coletiva, Santo Agostinho já afirmava que a necessidade não tem lei. A propósito desta situação vexatória que é a saúde pública, a mídia tem veiculado matéria do governo (historicamente avesso a cumprir com o repasse constitucional de recursos) que mostra bem a crítica situação estadual: os gastos com a Assembléia Legislativa e com o Tribunal de Contas são superiores ao que se gasta com a saúde e a educação alagoanas. Também favorecidos se encontram o Judiciário e o Ministério Público. Enfim, instituições públicas poderosas que usaram as suas prerrogativas para não ficarem na situação deplorável dos médicos do serviço público que atendem ao SUS. Mostrando que em relação à saúde a insensibilidade permanece, governo federal propõe como uma das soluções para o problema da segurança pública, bancar um justo piso para as polícias militares estaduais de R$ 1.650,00. Mas para a saúde, retira recursos. Os médicos, que lidam com as vidas humanas não mereceriam pelo menos semelhante atenção? A sociedade brasileira ? inclusive os legisladores e os formadores de opinião ?, acompanha e acompanhará de camarote esta tragédia que é o SUS. No máximo um lamento, uma momentânea solidariedade em pensamento. Já a questão da segurança pública que mexe realmente com o seu bem-estar pessoal e de sua família, vai indigná-la e vai mobilizá-la. (*) É médico e professor da Uncisal.