Opinião
O homem comum e com poderes incomuns
| Dom Fernando Iório * Que diferença entre o ano 1.000 e o ano 2000 e mais... Antes havia menos pessoas, que eram mais religiosas, mais tementes a Deus (na espera de eventos extraordinários para 1.033, o milésimo aniversário da crucificação de Jesus Cristo). Hoje milhares de seres humanos são expostos a ataques homicidas (gás paralisante no metrô de Tóquio...) A natureza (meio ambiente), poluída pelo ser humano, está, cada vez mais fora do seu controle. Com as forças cósmicas manipuladas pele inteligência humana, vinga-se a natureza e tira partido das fraquezas do homem, com o câncer, doença de proporções epidêmicas, com a Aids, que se multiplica rapidamente, bem mais que a peste bubônica dos séculos 16 e 17. Ainda mais: o terrorismo urbano, seitas satânicas que horrorizariam as bruxas do ano 1.000, a terrível angústia pelo pão cotidiano da ?Sociedade do Conforto?... Quem pode negar?... O simples ato de abrir um jornal ou acompanhar a noticiário da Mídia basta para nos fazer estarrecer... Quantos anos se foram desde que E. Fromm fez soar o alarme pelo futuro do planeta? O homem comum, com poderes incomuns, constitui maior perigo para a humanidade que o perverso ou o sádico. De certa maneira, estamos sendo ameaçados por uma profunda indiferença pela vida, uma síndrome de decadência que estimula o homem a destruir por amor à destruição, a odiar por apego ao ódio. A quem confiaremos nosso futuro? Que espécie de mundo merece o nascer de uma nova criança? O agravamento do medo lembra-nos os cavalos desenfreados do Apocalipse que se vão tornando os arautos do terror. E estamos todos no mesmo barco: o pobre não tem casa, nem pão, nem saúde; o rico não sabe como enfrentar o perigo adjetivo de uma ?síndrome albanesa?: número inacreditável de pessoas teve um vislumbrar de prosperidade e agora exige o seu lugar no banquete da vida; onde deve haver lugar para todas as crianças, desde o ato da concepção. Ergue a Igreja a voz com a força profética da encíclica ?Evangelium Vitae?, para expressar sua amarga surpresa ante as súbitas e profundas mudanças contra o direito fundamental à vida. Ela formula aquela denúncia que apontaria o enfraquecimento da consciência moral e da percepção jurídica, que intervém não apenas para desculpar atos criminosos ou condutas semelhantes (como o caso da ?descriminalização? do aborto), levando à negação deles como delitos, a ponto de tentar fazê-los reconhecidos como um direito. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.